Médico: entenda a importância de saber prescrever produtos à base de cannabis

Conheça os cuidados essenciais ao prescrever produtos de cannabis, desde a avaliação do certificado de análise até os desafios enfrentados pelos médicos

Publicada em 02/04/2025

Médico: entenda a importância de saber prescrever produtos à base de cannabis

Imagem ilustrativa: Canva Pro

O uso de produtos à base de cannabis no tratamento de condições médicas tem ganhado destaque, no Brasil e no mundo, oferecendo benefícios diversos. Segundo o Anuário da Cannabis Medicinal, em 2024 o Brasil alcançou a marca de 672 mil pacientes em tratamento com cannabis, um crescimento de 56% em relação ao ano anterior.

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Dr. Alexandre Kaup, neurologista clínico. Imagem: Arquivo pessoal 

Como ponto principal para prescrever com qualidade e segurança, o Dr. Alexandre Kaup, neurologista clínico no Hostpital Israelita Albert Einstein destaca a importância de entender que o tratamento com canabinoides é simplesmente um tratamento médico e deve ser levado com a seriedade que a medicina impõe aos profissionais da área.

Para ele, a preocupação dos médicos deve começar pela verificação da fabricado e da qualidade dos produtos. “A avaliação do certificado de análise nos fornece informações cruciais sobre o conteúdo de canabinoides e terpenos, garantindo que o produto esteja livre de metais pesados ou toxinas”, explica o médico.

Outro ponto importante destacado por Alexandre é a necessidade de acompanhamento médico contínuo, um desafio da medicina moderna devido ao fácil acesso a meios digitais, como aplicativos de mensagem. “Muitas vezes, os pacientes acreditam que apenas enviar uma mensagem ao médico é suficiente”, comenta.

 

Ação no corpo humano e principais indicações de uso

 

Os canabinoides podem atuar em diversas patologias, considerando que o Sistema Endocanabinoide está presente em diferentes sistemas do corpo, como o nervoso central, periférico e autônomo. "É necessário conhecer as contraindicações para garantir um uso seguro dos canabinoides”, alerta o especialista.

Os produtos à base de fitocanabinoides têm a capacidade de modular o Sistema Endocanabinoide, seja por suas ações nos receptores canabinoides, seja por sua atuação nas enzimas que degradam os endocanabinoides. Alexandre destaca síndromes que envolvem epilepsia de difícil controle, como a Síndrome de Lennox-Gastaut, a Síndrome de Dravet e a epilepsia associada à Esclerose Tuberosa, como as principais indicações para o uso de canabinoides.

“Esses produtos podem influenciar, por exemplo, a frequência cardíaca e a pressão arterial, além de interações medicamentosas complexas e metabolização hepática", completa.

No tratamento do espectro autista (TEA), uma doença com poucos tratamentos disponíveis para seus sintomas centrais, o médico aponta que há estudos clínicos promissores com bons resultados. “No tratamento da dor e espasticidade em doenças neurológicas, como a Esclerose Múltipla e neuropatias periféricas, observamos bons resultados em alguns casos”, comenta.

O médico também destaca o uso de cannabis para transtornos do sono, ansiedade e alterações comportamentais associadas à demência. “Há relatos positivos, e os estudos clínicos sobre o uso de canabinoides para tratamento da enxaqueca estão em andamento. Muitos pacientes já relatam melhora”, explica, ressaltando o papel adjuvante dos canabinoides em associação a outras terapias.

 

Desafios na prescrição de cannabis medicinal

 

Um dos principais desafios para médicos que utilizam a cannabis como ferramenta terapêutica é o elevado custo de acesso aos produtos e o preconceito ainda existente em torno da planta. “Isso certamente impacta o desenvolvimento dessa terapia”, afirma Alexandre.

Com a descoberta do Sistema Endocanabinoide ocorrendo apenas na metade da década de 1990, as instituições de ensino ainda enfrentam dificuldades para incluir esse conteúdo na formação médica, outro desafio apontado por Alexandre.

“Poucos cursos de medicina oferecem algum tipo de formação sobre canabinoides. O ideal seria disponibilizar cursos focados no entendimento do Sistema Endocanabinoide, nas indicações baseadas em evidências e na segurança da prescrição”, recomenda.

 

“Não se trata de um tratamento sem riscos”

 

O médico também destaca a variedade de canabinoides e a diferença nas concentrações e proporções de cada produto de cannabis. “Os produtos podem variar de canabidiol isolado (CBD) até aqueles que contêm CBD e outros canabinoides, com ou sem THC, chamado 'broad spectrum', ou ainda o 'full spectrum', que contém THC”, explica.

Segundo ele, as possibilidades da cannabis exigem cautela dos médicos, especialmente devido ao THC, o componente psicotrópico da planta. “Não devemos utilizar produtos com THC em pacientes com menos de 25 anos ou com histórico de esquizofrenia ou quadros psicóticos. O mesmo se aplica a pacientes com insuficiência cardíaca e coronariana”, ressalta.

A interação medicamentosa também deve ser levada em consideração, como o uso concomitante com anticoagulantes dicumarínicos. “Alguns estudos mostram maior mortalidade em pacientes oncológicos que usaram canabinoides em comparação aos que não usaram. Portanto, não se trata de um tratamento sem riscos”, conclui o médico.

 

Aprender para depois prescrever

 

Confirmado como palestrante do Módulo MedCan Especialidades no Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal 2025, o médico Alexandre Kaup, junto a outros especialistas da área, apresentará diversos ensinamentos para profissionais da saúde sobre como prescrever cannabis com qualidade e segurança.

Em sua 4ª edição, o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal é o principal evento científico e profissional da América Latina, dedicado a promover inovações e avanços no uso medicinal da cannabis. Ao longo de três dias, de 22 a 24 de maio, os participantes terão a oportunidade de vivenciar uma experiência única, com mais de 100 palestrantes renomados, tanto nacionais quanto internacionais, e uma expectativa de 1.200 congressistas.

 

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Exclusivo para profissionais da saúde, o Módulo MedCan Especialidades, que acontece no último dia do evento (24), aprofunda-se em especialidades médicas, abordando temas como interação medicamentosa, estética e doenças neurológicas, além de discussões de casos clínicos.