Pesquisa internacional cobra mais rigor científico no uso da cannabis medicinal
Uma revisão científica destaca a falta de evidências robustas sobre a cannabis medicinal e reforça a necessidade de pesquisas mais rigorosas e equilibradas na área
Publicada em 08/01/2026

Evidências limitadas reacendem debate sobre pesquisas em cannabis medicinal | CanvaPro
O crescimento do uso da cannabis medicinal para diferentes condições clínicas não tem sido acompanhado, na mesma proporção, por evidências científicas robustas. Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) reforça que há comprovação consistente apenas para um número restrito de indicações, enquanto a maioria dos usos segue amparada por dados limitados ou inconclusivos.
Segundo a revisão, que analisou milhares de estudos publicados ao longo da última década, a qualidade das evidências disponíveis ainda é considerada insuficiente para sustentar recomendações clínicas amplas, especialmente em casos como dor crônica, ansiedade e insônia.
Apesar dos apontamentos da pesquisa, as evidências de muitos casos clínicos mostram que a cannabis tem atingido resultados satisfatórios. Em entrevista para o quadro "Vidas Transformadas" da Sechat, Daiany Dias relatou boa resposta ao uso da cannabis medicinal, ressaltando o impacto positivo no enfrentamento dos efeitos da quimioterapia e na qualidade do descanso.
"Durante as sessões de quimio eu pensei mesmo que ia morrer, porque é uma sensação muito forte, que parece que seu coração vai parar. Nos dias seguintes, eu tinha vômitos, mal-estar, suava muito, uma sensação horrível. E aí a cannabis me ajudava nisso, a superar esse pós-quimioterapia, além de me permitir dormir melhor”.
Onde a ciência aponta benefícios claros
De acordo com o estudo, medicamentos canabinoides prescritos apresentaram resultados mais consistentes no controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, no estímulo do apetite em pacientes com HIV/AIDS e no tratamento de epilepsias pediátricas raras, como as síndromes de Dravet e Lennox-Gastaut. Fora desses contextos, os benefícios observados foram classificados como modestos ou inconsistentes, quando comparados a terapias já consolidadas.
Orientação médica, riscos e expectativas realistas

Para o médico reumatologista e clínico Dr. Tiago Campanholi, os dados reforçam a necessidade de transparência na relação médico-paciente.
Segundo ele, prescritores devem reconhecer a fragilidade das evidências científicas atuais e informar que cerca de 30% dos pacientes podem apresentar efeitos adversos, incluindo alterações cognitivas, efeitos psiquiátricos, cardiovasculares e risco de dependência.
“O uso da cannabis medicinal deve ser tratado como um recurso terapêutico adjuvante, e não como uma solução milagrosa. É fundamental evitar promessas, esclarecer que os resultados variam e que o objetivo é melhorar sinais e sintomas, sem substituir integralmente tratamentos convencionais”, explica.
O especialista também destaca a importância de avaliação clínica detalhada, acompanhamento contínuo e monitoramento frequente, com ajustes de dose e análise de possíveis interações medicamentosas. Além disso, defende a integração da cannabis a outras abordagens terapêuticas, como fisioterapia, psicoterapia e farmacoterapia tradicional.
"Todas as decisões clínicas devem ser individualizadas, documentadas e alinhadas às normas do CFM e da Anvisa, garantindo segurança, ética e informação clara para o paciente", finaliza.



