Os surtos da industria da cannabis na Argentina 

Com a nova regulamentação que permite que o país utilize a cannabis para diferentes fins, não devemos pensar nas críticas, mas sim em como alcançar novos objetivos

Os surtos da industria da cannabis na Argentina 
Os surtos da industria da cannabis na Argentina 

Por Pablo Fazio

Mais de 460 dias se passaram desde que o Congresso Nacional Argentino aprovou a Lei nº 27.669 “Marco Regulatório para o Desenvolvimento da Indústria da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial”. Contudo, alcançar isto foi o resultado de um trabalho colaborativo entre atores públicos e a sociedade civil, expresso em câmaras empresariais, organizações não governamentais e milhares de usuários que solicitaram organizadamente os seus direitos. 

Durante esses dias intermináveis, sentimos ansiedade e alguma frustração. Procuramos repostas que pareciam nunca surgir no meio de uma crise política e econômica que deslocou alguns dos principais intervenientes que lideraram o processo legislativo no seu início; situação que ameaçava esquecer muito do que sentíamos ter conquistado. 

Vencidos os prazos regulamentares, os atrasos produzidos adicionalmente pela tardia constituição da ARICCAME (Agência Reguladora da Indústria do Cânhamo e da Cannabis Medicinal), foram agravados pela incerteza gerada pelo resultado das próximas eleições nacionais, o que poderá levar a uma significativa mudança nos rumos do país e a ameaça de enfrentar uma perspectiva ideológica oposta à agenda da cannabis, o que acrescentou ainda mais complexidade à situação. 

Porém, chegou o dia de dar o passo decisivo. No dia 7 de agosto de 2023 foi publicado o Decreto Regulamentar 405/23, que finalmente estabelece as condições de acesso às licenças de produção industrial de cannabis, abrangendo uso humano medicinal, veterinário, nutricional, cosmético, industrial, sanitário e de fertilidade vegetal, bem como todos os usos que decorrem da investigação científica e do desenvolvimento tecnológico. 

O primeiro ponto a destacar é que para o Estado argentino “Cannabis” é qualquer planta de Cannabis Sativa L, considerada psicoativa ou não; estabelecendo a distinção entre Cannabis psicoativa (aquela em que alguma de suas partes contém teor de tetrahidrocanabinol - THC superior a 1%) e Cânhamo (aquela em que partes, sementes e todos os seus derivados, que contenham igual ou inferior a 1% de THC, cujo destino seja fins industriais ou hortícolas). 

Embora o regulamento não especifique os procedimentos administrativos necessários para a obtenção de licenças, foram criadas categorias para cada etapa produtiva da cadeia de valor, incluindo licenças para:  

1) Melhoramento, multiplicação e cultivo;  

2) Serviços logísticos;  

3) Produção de derivados e comercialização ao público;  

4) Aquisição, posse, custódia e venda de cannabis, extratos e produtos derivados para fins comerciais;  

5) Estudos e testes analíticos; e  

6) Comércio exterior. 

Em relação ao cânhamo, é estabelecido um sistema de autorização mais simples para:

1) Importação e comercialização de sementes e mudas;  

2) Semeadura, produção e comercialização de sementes;  

3) Processamento de cânhamo e produção de derivados; e 

4) Aquisição de derivados e/ou biomassa para comercialização e exportação. 

No entanto, e para além do que a regulamentação prevê em termos gerais, aguardamos como será a sua implementação, porque é aí que está em jogo o destino daquilo que estamos a tentar construir. 

Atentos aos precedentes internacionais, esperamos que as nossas autoridades demonstrem uma leitura correta e uma compreensão adequada dos problemas da indústria no mundo. Acreditamos que precisamos aprender com os muitos erros que foram cometidos nos países que nos precederam para evitar repeti-los aqui, uma vez que foi dispendioso em termos de investimentos desperdiçados, oportunidades perdidas e objectivos perdidos. 

Há uma grande oportunidade sobre a mesa: a criação de 10 mil empregos, o desenvolvimento de um mercado interno de 500 milhões de dólares e a projeção de gerar exportações acumuladas de mais de 1 bilhão de dólares nos próximos 10 anos. No entanto, depende estritamente de nós fazê-lo com inteligência ou deixá-lo passar. 

Agora é o momento em que se espera, de acordo com o estabelecido no texto da lei, que sejam aprovadas as licenças dos projetos que foram autorizados pela Lei 27.350 e que já estão em andamento. É urgente fazê-lo, porque em muitos casos os investimentos foram antecipados e boa parte deles está a pagar salários num quadro de enorme incerteza e com poucas expectativas de geração de rendimentos, até agora. 

Para aliviar a ansiedade, é importante compreender que é pouco provável que haja espaço para mais novidades antes do final do ano, dado o tempo administrativo que o Estado necessita para convocar os interessados, concender as licenças, analisar a documentação exigida e realizar a avaliação e emissão do relatório técnico previsto no regulamento por representantes das diferentes jurisdições onde os projetos serão desenvolvidos. Esta não será uma tarefa fácil, pois além de avaliar o cumprimento das regulamentações locais e provinciais, a análise inclui uma avaliação de impacto em termos de criação de emprego direto e indireto, desenvolvimento de fornecedores, utilização de capacidades técnicas e serviços locais, além do relacionamento com o ambiente científico e técnico, bem como o seu impacto na potencial reestruturação da produção na jurisdição. 

Seria confortável focar nas críticas e ver o copo meio vazio, apontando detalhes vagos que permitem diversas interpretações, como possíveis conflitos concorrenciais entre ARICCAME e outras organizações como ANMAT, INASE ou SENASA, ou a falta de clareza operacional na a concessão de licenças. No entanto, prefiro centrar-me neste marco como um passo em frente num processo mais amplo que não para e deve terminar no debate sobre o uso adulto que a nossa sociedade exige e merece. Convido a todos a valorizarem o caminho percorrido e a unirem forças, pois o trabalho continua e há muitas batalhas pela frente que devemos estar preparados para enfrentar. 

Hoje é hora de comemorar o objetivo alcançado. Esperemos que este seja o ponto de partida para abandonar preconceitos e afastar-se de abordagens restritivas. Que seja o início de uma nova etapa onde prevaleçam a criatividade e a audácia para liderar os processos que o ecossistema canábico e a sociedade exigem. 

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Sobre o autor:

Pablo Fazio é empresário e empreendedor de pequenas e médias empresas. Atualmente, mora na Argentina, onde preside a Câmara Argentina de Cannabis (Argencann), que tem o objetivo de promover o desenvolvimento e a expansão da indústria de cannabis no país.