Parte 2: Mulheres, mães e plantadoras de maconha

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Por Caroline Apple

O Coletivo Mães Independentes, do Recife (PE), é formado por cinco mulheres que viram no cultivo da maconha uma chance de medicar seus filhos de forma independente, segura e econômica. O Sechat contou a história de duas dessas mães e, agora, vai trazer o relato das outras três mães que compõem o coletivo.

De acordo com a dona de casa Conceição de Maria da Silva Corrêa, de 38 anos, uma das integrantes do Mães Independentes, o coletivo é importante porque reafirma todos os dias a resiliência, a alternativa de possibilidades e a sororidade. “Vencemos somente juntas, fazendo todo dia a desobediência civil. Vencer o proibicionismo todos os dias é cansativo, mas hoje fazemos nosso papel na sociedade”, relata.

Essas mães enfrentaram primeiro seus próprios preconceitos até entrarem na luta por um óleo de qualidade que atendesse as necessidades de seus filhos e também coubesse no bolso. Mesmo o valor muitas vezes inacessível sendo um dos pontos citados por todas mães, a maior vantagem em plantar está na segurança do produto. “Não pensei duas vezes em plantar, porque eu sei o que estou dando para minha filha”, diz a costureira Rosineide Almeida da Silva, de 54 anos.

Veja as histórias de luta dessas mulheres mães, negras, periféricas e nordestinas que estão dando um show de cidadania e de resistência diante de um sistema proibicionista e excludente.

“Queria que fosse camomila, mas é maconha”

Ceça e seu pequeno Manoel

A dona de casa Conceição de Maria da Silva Corrêa, de 38 anos, é mãe do pequeno Manoel Maciel, de oito anos, que, por um erro médico, ficou tetraplégico e apresenta um quadro de epilepsia, por conta das graves lesões que danificaram o sistema nervoso central da criança.

De acordo Ceça, como é conhecida, seu filho ganhou o direito de receber a medicação alopática necessária gratuitamente, porém, ela nunca chegou. “O mesmo sistema que deixou ele na cadeira de rodas deu a ele o direito de ter as medicações convencionais, mas nunca chegavam. Eu via minha criança definhar, mas dava um jeito de comprar [a medicação] mesmo numa condição de vulnerabilidade social. Sou mãe solo e tinha que dar um jeito”, conta.

Porém, a medicação o dopou e em um dos laudos médicos de Manoel constava a informação de que ele era “indiferente ao mundo externo”.

Ceça então decidiu tentar usar o óleo de Cannabis para que o filho recuperasse a fome, que era retirada por conta dos remédios alopáticos, deixando a criança ainda mais debilitada. “Ele teve uma excelente melhora. No começo demos um óleo rico em THC, que trabalhava a falta da fome. A larica do óleo aumentava a fome. Então conseguimos frear um pouco as crises e tirar a medicação que tirava a fome”, relembra.

Apesar da doença base de Manoel continuar, ele começou a ter uma melhora significativa na qualidade de vida. A ameaça da sonda alimentar desapareceu, as crises zeraram, a vida social começou e a rotina ganhou cor.

Porém, o preço do óleo era um empecílio. “A gente não conseguia receber nem os remédios alopáticos com decisão judicial, então como íamos receber maconha”, diz. E as incertezas deram lugar a decisão importante de começar o cultivo.

“Eu era proibicionista. Nunca pensei que precisaria plantar maconha. Queria que fosse camomila, mas é maconha. Queria que fosse hortelã que desse os resultados que meu filho precisa, mas é maconha”, afirma.

“Jamais pensei em plantar maconha. Hoje, sou apaixonada por cultivar”

Rosineide se apaixonou por plantar maconha

As 54 anos, a costureira Rosineide Almeida da Silva não tinha ideia que nessa fase da vida aprenderia a cultivar algo por necessidade, muito menos maconha. Porém, o amor por sua filha autista Débora Vitória Almeida da Silva foi seu motor.

“Quando descobri que ela era autista eu fiquei completamente perdida. Eu não sabia como lidar. Então, recorri a uma grupo de mães de crianças autistas e foi lá que soube sobre a Cannabis”, conta.

E foi por meio de uma publicação, na qual uma mulher vendia óleo artesanal, que Rosineide decidiu testar o medicamento na filha, que ela não aguentava mais ver dopada de tanto remédio alopático. “Eu nem sabia o que estava comprando, se tinha muito THC ou CBD, mas comprei. No primeiro dia minha filha dormiu sem remédio. Isso foi há quatro anos”, relembra.

Desde então, Rosineide tomou a dianteira do tratamento da sua filha. A costureira fez curso de cultivo, clonagem, extração e decidiu plantar diante das dificuldades que encontrava para achar o óleo certo e com um preço que ela podia pagar.

“Hoje, sei a qualidade do óleo que dou para minha filha. Conheci as mães e nos unimos, pensamos da mesma forma, cada uma plantando em casa. A gente colhia, extraia o óleo e dividia”, diz.

Rosineide se diz apaixonada por cultivar maconha e relembra os preconceitos próprios e das pessoas que precisou superar para dar qualidade de vida para sua filha. “Eu, cristão, com uma certa idade, jamais pensei que plantaria maconha. Os médicos chegadam a pedir para eu não falar a palavra maconha perto da minha filha. O que as pessoas veem como droga, minha filha vê como remédio. Não me vejo mais sem plantar”, finaliza.

“Nunca imaginei que um dia plantaria maconha”

Desde 2016, a professora Patricia Albuquerque Rodrigues, de 48 anos, trata seu filho Ênio Rodrigues de Luna, de 10 anos, com Cannabis. Ênio tem Sindrome de West que gera o quadro de epilepsia refratária com atraso no desenvolvimento.

Quando começou a medicar seu filho com maconha, a professora notou logo de cara a diminuição das crises e o aumento da atenção do pequeno. Diante de uma melhora na sua qualidade de vida, Patrícia logo partiu para o cultivo, porém os desafios não foram poucos.

“Tive que fazer testes com várias cepas para selecionar a mais eficaz. E pensar que eu tinha total desconhecimento sobre a maconha, principalmente em relação ao seu uso terapêutico”, conta a professora.

Patrícia conta que jamais imaginou que um dia plantaria maconha, mas que deu conta do recado a partir de muito estudo e pesquisas.

E foi nessa luta por conhecimento e contra o preconceito que a professora encontrou as outras Mães Independentes. “Nos unimos para nos ajudar e apoiar, além de divulgar as condições de nossos filhos”, diz.

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