A corrida da indústria de alimentos pelo cânhamo

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Marcelo é co-fundador e CMO da The Green Hub e colunista Sechat. (Foto: Arquivo)

Por Marcelo de Vita Grecco

A indústria de alimentos é cada vez mais direcionada à busca de alternativas naturais, saudáveis e funcionais. A demanda crescente dos consumidores vai ao encontro da ascensão do conceito de super alimentos. Estamos falando de frutas, hortaliças, legumes, verduras, grãos e sementes. Apenas para ficar nas sementes, provavelmente você já deve ter ouvido falar de chia e linhaça. Porém, os brasileiros praticamente não ouvem falar da semente de cânhamo.

Entre as sementes, ela é a maior fonte de proteína, que responde por 25% de sua composição, percentual maior que o da soja, quinoa, chia e linhaça. Adicionalmente, 5% dela é fonte de fibras. E não para por aí. Possui antioxidantes, vitaminas do complexo B e grande volume de vitamina E, além da maioria dos aminoácidos essenciais, que não são fabricados pelo corpo humano, como a arginina, por exemplo. Também oferece importantes minerais, incluindo fósforo, magnésio, ferro e zinco. No total, a semente de cânhamo tem 50% de ácidos graxos, mas 80% desse volume são poli-insaturados, com presença de ômega-3 e ômega-6.

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Sementes de cânhamo (Foto: kostrez/Shutterstock)

Trata-se de um ingrediente extraordinário, com excelente textura e sabor semelhante ao das castanhas. Ela pode ser consumida in natura e pode ser transformada em farinha e óleo. Para a indústria, além do expressivo perfil nutricional, as sementes podem fazer o papel de emulsificante e ser trabalhadas em forma gelatinosa ou espumante, reunindo a versatilidade que as empresas do setor alimentício procuram e a praticidade para o crescente público que procura opções para incrementar a gastronomia caseira.

Por tudo isso, é correto dizer que a semente de cânhamo tem tudo para ser a nova estrela das dietas? Sim e já está sendo, mas não no Brasil. As propriedades naturais da semente são tão grandes quanto a dificuldade de entender as restrições vigentes no País. A Portaria nº 344/98 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), voltada ao regulamento técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos à controle especial, impede que os brasileiros desfrutem das sementes e tudo o que elas podem proporcionar. Isso é inexplicável do ponto de vista científico, considerando a comprovação de que a semente de cânhamo nem sequer possui canabinoides.

No entanto, independentemente da regulação brasileira retrógada, a semente de cânhamo representa saúde, bem-estar e bons negócios mundo afora.

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Linha de produção (Foto: Reprodução/Weinberger)

Corrida global – Um dos maiores focos da indústria alimentícia é encontrar oportunidades de inovar. Nesse sentido, nada melhor do que um novo alimento para explorar. Não à toa, grandes players já estão envolvidos de alguma forma com esse novo super alimento, incluindo gigantes multinacionais como Nestlé e Kraft Heinz.

Uma das pontas de lança do mercado alimentício em torno das sementes de cânhamo é a carne de cânhamo, vertente que está acelerando o ganho de espaço rapidamente no mercado europeu e na região da Ásia-Pacífico. Esse movimento é impulsionado pela demanda ascendente de vegetarianos e veganos, bem como de pessoas que buscam opções alimentares livres de glúten e lactose, seja por alergias ou intolerância.

Nessa onda, outras empresas já se projetam mais fortemente. A israelense Roots fez acordo com a tcheca Hempoint para promover oportunidades no segmento de carne vegetal à base de cânhamo e conseguiram ser pioneiros no continente. Ainda na Europa, o mercado no Reino Unido para alimentos à base de cânhamo está em franca evolução e já é o segundo mais importante globalmente, atrás apenas dos Estados Unidos.

Já a rede australiana de restaurantes Grill’d tem como um dos destaques de seu menu o “Hemp Therapea”, lanche com protagonismo de um hamburger vegano à base de cânhamo. E os vizinhos neozelandeses não ficaram para trás. Três organizações do país, a Sustainable Foods, Greenfern Industries e o Riddet Institute (Massey University) firmaram parceria e estão desenvolvendo carne vegetal, produtos e ingredientes alimentícios à base de cânhamo.

Na Ásia, a Índia está chegando com regulamentação nova para explorar o cânhamo como fonte para produtos alimentícios. Trata-se de um mercado interno imenso e, ainda, existe potencial significativo para exportação. Ou seja, perspectiva de números vultosos para as empresas indianas no horizonte.

Além da carne vegetal, as sementes de cânhamo estão nas prateleiras dos supermercados em diversos países em pães, muffins e chips, entre outros produtos assados. Em algumas regiões, as projeções mais otimistas mostram que alimentos à base de cânhamo responderão por 50% da receita industrial da planta. Esse dado é muito expressivo, considerando que o cânhamo pode ter 25 mil aplicações industriais.

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Alimentação animal – Além da alimentação humana, as sementes de cânhamo reúnem todas as condições para atender tanto o mercado pet e veterinário, como os produtores de proteína animal. No Chile, as sementes de cânhamo são utilizadas na criação de salmão. Já no Equador, o mesmo acontece na criação de camarão. Um exemplo emblemático das propriedades dessa semente vem da Itália. As sementes são utilizadas por alguns criadores na alimentação de galinhas. O objetivo é a produção de ovos com maior teor proteico para a produção de sorvetes.

E se não quisermos ir tão longe, já temos vizinho surfando bem a nova onda. O Paraguai investiu fortemente em sementes e já se tornou exportador.

Temos todos os subsídios para acreditar que a simples liberação da semente de cânhamo no Brasil já seria suficiente para gerar um novo mercado milionário, a partir da união de um poderoso trio: alimentação, saúde e bem-estar. E nem estou contando as possíveis aplicações para a indústria de cosméticos. Porém, se o País permanecer míope em relação aos novos tempos e ao futuro, corre o risco de continuar com a “batata assando”, sem criar mais oportunidades para o desenvolvimento econômico.

*Marcelo De Vita Grecco é cofundador, head de Negócios da The Green Hub e colunista do Sechat

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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