Inflamação, canabinoides e COVID

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Segundo o neurocientista, a resposta imunológica, incluindo a inflamação, é importante para a defesa do organismo. Porém, no longo prazo, um processo inflamatório crônico pode ser extremamente nocivo (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Stevens Rehen, com a colaboração de Luiz Hendrix*

Endocanabinoides são moléculas de natureza lipídica produzidas pelo corpo humano, incluindo a anandamida e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG), que se ligam aos receptores canabinoides CB1 e CB2 presentes em células do cérebro, principalmente nas regiões responsáveis pela emoção, cognição, apetite e coordenação motora e também no sistema imunológico, intestino e outros tecidos periféricos. 

Podemos considerar os receptores celulares como fechaduras espalhadas pelo cérebro e o corpo, e, no caso específico, onde os endocanabinoides se ligam como chaves para produzir respostas fisiológicas marcantes.

Podemos considerar os receptores celulares como fechaduras espalhadas pelo cérebro e o corpo, e, no caso específico, onde os endocanabinoides se ligam como chaves para produzir respostas fisiológicas marcantes. Juntamente com os receptores CB1 e CB2 e enzimas que controlam suas quantidades, eles formam o sistema endocanabinoide. O sistema endocanabinoide regula, por exemplo, a transmissão de neurotransmissores no cérebro. No sistema imunológico possui efeitos imunomoduladores.  

A planta Cannabis sativa é rica em centenas de fitocanabinoides, incluindo canabidiol (CBD) e tetra-hidrocanabinol (THC). Ambos se ligam aos mesmos receptores CB1 e CB2 e são responsáveis por boa parte dos efeitos terapêuticos da cannabis estudados em seres humanos. Outros efeitos da cannabis dependem de terpernoides, flavonoides e demais substâncias. 

A habilidade do THC em se ligar ao CB1 explica seus efeitos psicotrópicos, mas não esclarece algumas de suas ações periféricas que dependeriam do CB2, o segundo receptor canabinoide distribuído pelo corpo humano. O THC pode ainda inibir a fagocitose de macrófagos, célula crucial para o processo inflamatório.

A habilidade do THC em se ligar ao CB1 explica seus efeitos psicotrópicos, mas não esclarece algumas de suas ações periféricas que dependeriam do CB2, o segundo receptor canabinoide distribuído pelo corpo humano. O THC pode ainda inibir a fagocitose de macrófagos, célula crucial para o processo inflamatório. O CBD também é capaz de disparar respostas anti-inflamatórias, reduzindo os níveis das citocinas IL-6 e IL-8. Essas e outras evidências ratificam o potencial dos fitocanabinoides na regulação de processos imunológicos, como a inflamação, resposta natural do corpo contra danos causados por agentes externos e internos.

A resposta imunológica, incluindo a inflamação, é importante para a defesa do organismo. Porém, no longo prazo, um processo inflamatório crônico pode ser extremamente nocivo.

A resposta imunológica, incluindo a inflamação, é importante para a defesa do organismo. Porém, no longo prazo, um processo inflamatório crônico pode ser extremamente nocivo. São muitas as doenças associadas a respostas inflamatórias exacerbadas, incluindo as neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson. 

Cientistas e médicos identificaram que uma das consequências mais graves da COVID-19 é a inflamação severa nos pulmões. O Sars-Cov-2 utiliza o receptor ECA2 como principal porta de entrada nas células, onde se multiplica. A progressão da COVID-19 é caracterizada por uma resposta imunológica bifásica. A primeira fase é diretamente ligada à invasão do coronavírus. A segunda, a inflamatória, acontece mesmo após a redução da carga viral. O corpo reage à infecção com uma resposta inflamatória que pode danificar o tecido pulmonar, gerando cicatrizes e acúmulo de líquido. Como consequência, há redução da passagem de oxigênio dos pulmões para a corrente sanguínea. Em alguns pacientes, o processo inflamatório deflagra ainda uma “tempestade de citocinas” incluindo IL-6, IL-8, TNFα e CCL2. 

Um estudo publicado na revista Scientific Reports, liderada pelo cientista Hinanit Koltai, sugere que componentes da cannabis podem ajudar a reduzir a inflamação de células pulmonares afetadas pela COVID-19.

Seguindo a analogia com uma tempestade, podemos dizer que o derramamento inflamatório pode “alagar” o organismo, interferindo nos mecanismos de defesa, podendo causar danos permanentes e óbito.

Um estudo publicado na revista Scientific Reports, liderada pelo cientista Hinanit Koltai, sugere que componentes da cannabis podem ajudar a reduzir a inflamação de células pulmonares afetadas pela COVID-19. Foram identificadas combinações de canabinoides com a atividade anti-inflamatória em células epiteliais do pulmão e sobre a atividade fagocítica de macrófagos em laboratório.

Pouco se sabe sobre o efeito da combinação de canabinoides sobre a inflamação de células epiteliais alveolares e imunológicas. A partir do fracionamento por cromatografia líquida em coluna de um extrato puro de uma cepa de Cannabis sativa, os pesquisadores isolaram duas frações, uma rica em CBD (FCBD) e a outra em THC (FTHC). No laboratório, o FCBD reduziu a produção de IL-8 e IL-6 pelas células epiteliais alveolares, proteínas presentes nos pacientes graves com COVID-19. Além do CBD, o FCBD continha outros canabinoides, incluindo CBG e THCV.

Os pacientes graves de COVID-19 também possuem aumento na produção de moléculas inflamatórias, como CCL2 e CCL7. Além de reduzir os níveis de IL-6 e IL-8, a FCBD reduziu os níveis de CCL2 e CCL7 em células epiteliais alveolares. Já foi demonstrado que CCL2 é abundante no fluido broncoalveolar de pacientes graves de COVID-19, além de associado ao recrutamento de monócitos para os pulmões. Os resultados sugerem que a FCBD pode reduzir a secreção de moléculas pró-inflamatórias associadas à doença e, possivelmente, a uma redução do recrutamento de macrófagos durante a tempestade de citocinas.

Nos testes de laboratório, a dexametasona, um anti-inflamatório esteroide, se mostrou mais eficaz do que a FCBD na redução da expressão de CCL2 e CCL7. Por outro lado, os pesquisadores também demonstraram que a FCBD reduziu o nível de expressão de ECA2, mais do que a dexametasona. Este resultado é importante porque o aumento de ECA2 elevaria os níveis de bradicinina em vários tecidos, aumento de permeabilidade vascular e hipotensão, sendo que esse último sintoma associado a pacientes COVID-19 graves. É importante mencionar que a redução da expressão de ECA2 deve ser considerada com cautela, pois há vantagens e desvantagens nessa diminuição. O grupo descreveu que a FCBD aumentou a polarização de macrófagos e a remodelação da actina celular que corresponde ao crescimento de estruturas de membrana semelhantes a filopódios. Os macrófagos alveolares desempenham um papel importante durante infecções virais agudas e na depuração mediada por fagocitose de infecções virais respiratórias. A FCBD elevou a capacidade fagocítica dos macrófagos. A presença de terpenos em FCBD pode ser responsável por esse efeito. 

Por mais que o estudo indique que os canabinoides são efetivos na redução de distúrbios inflamatórios, mais pesquisas sobre o potencial terapêutico da cannabis especificamente em pacientes com COVID-19 são necessárias.

Os pesquisadores sugerem que a combinação dos canabinoides CBD, CBG e THCV tem potencial clínico na redução da secreção de citocinas, enquanto a adição de terpenos ativaria a fagocitose por macrófagos.
Por mais que o estudo indique que os canabinoides são efetivos na redução de distúrbios inflamatórios, mais pesquisas sobre o potencial terapêutico da cannabis especificamente em pacientes com COVID-19 são necessárias. Os pesquisadores israelenses também alertam que a FCBD com terpenos aumentou os níveis de citocinas, o que poderia até mesmo agravar as consequências da “tempestade de citocinas” da COVID-19 grave. Até que novas pesquisas sejam realizadas,  o uso de canabinoides para prevenção ou tratamento do COVID-19 não é recomendada.

*Stevens Rehen é neurocientista e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Veja outros artigos de nossos colunistas: 

Alex Lucena 

– Inovação e empreendedorismo na indústria da Cannabis (19/11/2020)

– Inovar é preciso, mesmo no novo setor da Cannabis (17/12/20)

 Sem colaboração, a inovação não caminha (11/02/2021)

Bruno Pegoraro

– A “legalização silenciosa” da Cannabis medicinal no Brasil (31/03/2021)

Fabricio Pamplona

– Os efeitos do THC no tratamento de dores crônicas (26/01/2021)

 Qual a dosagem ideal de canabidiol? (23/02/2021)

– CBD: batendo na porta da psiquiatria (05/04/2021)

– Está comprovado: terpenos e canabinoides interagem diretamente com mecanismo canabinoide (27/04/2021)

Fernando Paternostro

– As multifacetas que criamos, o legado que deixamos (11/3/2021)

– Vantagem competitiva, seleção natural e dog years (08/04/2021)

– Comunidade, maturidade, elasticidade: o ecossistema canábico em plena expansão (06/05/2021)

Jackeline Barbosa

 Cannabis, essa officinalis (01/03/2021)

– A Cannabis feminina (03/05/2021)

Ladislau Porto

– O caminho da cannabis no país (17/02/2021)

– Associações x regulação x Anvisa x cannabis (26/04/2021)

Luciano Ducci

– Vão Legalizar a Maconha? (12/04/2021)

Mara Gabrilli

– A luta pela Cannabis medicinal em tempos de cloroquina (23/04/2021)

Marcelo de Vita Grecco

– Cânhamo é revolução verde para o campo e indústria (29/10/2020)

– Cânhamo pode proporcionar momento histórico para o agronegócio brasileiro (26/11/2020)

– Brasil precisa pensar como um país de ação, mas agir como um país que pensa (10/12/2020)

– Por que o mercado da cannabis faz brilhar os olhos dos investidores? (24/12/2020)

– Construção de um futuro melhor a partir do cânhamo começa agora (07/01/2021)

– Além do uso medicinal, cânhamo é porta de inovação para a indústria de bens de consumo (20/01/2021)

 Cannabis também é uma questão de bem-estar (04/02/2021)

– Que tal CBD para dar um up nos cuidados pessoais e nos negócios? (04/03/2021)

– Arriba, México! Regulamentação da Cannabis tem tudo para transformar o país (18/03/2021)

– O verdadeiro carro eco-friendly (01/04/2021)

– Os caminhos para o mercado da cannabis no Brasil (15/04/2021)

– Benchmark da cannabis às avessas para o Brasil (29/04/2021)

Maria Ribeiro da Luz

– Em busca do novo (23/03/2021)

– A tecnologia do invisível (20/04/2021)

Patrícia Villela Marino

– Nova York, cannabis, racismo e prisão (28/04/2021)

Paulo Jordão

– O papel dos aparelhos portáteis de mensuração de canabinoides (08/12/2020)

– A fórmula mágica dos fertilizantes e a produção de canabinoides (05/01/2021)

– Quanto consumimos de Cannabis no Brasil? (02/02/2021)

 O CannaBioPólen como bioindicador de boas práticas de cultivo (02/03/2021)

– Mercantilismo Português: A Origem da Manga Rosa (06/04/2021)

– O cânhamo industrial, as barreiras comerciais e o substitutivo do PL 399/2015 (04/05/2021)

Pedro Pierro

– Qual nome devemos usar? (05/05/2021)

Pedro Sabaciauskis

– O papel fundamental das associações na regulação da “jabuticannábica” brasileira (03/02/2021)

 Por que a Anvisa quer parar as associações? (03/03/2021)

– Como comer a jabuticannabica brasileira? (13/04/2021)

Ricardo Ferreira

– Da frustração à motivação (03/12/2020)

– Angels to some, demons to others (31/12/2020)

 Efeitos secundários da cannabis: ônus ou bônus? – (28/01/2021)

 Como fazer seu extrato render o máximo, com menor gasto no tratamento (25/02/2021)

– Por que os produtos à base de Cannabis são tão caros? (25/03/2021)

– A Cannabis no controle da dor e outras consequências do câncer (22/04/2021)

Rodolfo Rosato

– O Futuro, a reconexão com o passado e como as novas tecnologias validam o conhecimento ancestral (10/02/2021)

– A Grande mentira e o novo jogador (10/3/2021)

– Mister Mxyzptlk e a Crise das Terras Infinitas (14/04/2021)

Rogério Callegari

– Sob Biden, a nova política para a cannabis nos EUA influenciará o mundo (22/02/2021)

– Nova Iorque prestes a legalizar a indústria da cannabis para uso adulto (17/03/2021)

Solange Aparecida Nappo

– Qual a relação entre crack e maconha? (07/05/2021)

Stevens Rehen

 Cannabis, criatividade e empreendedorismo (12/03/2021)

Waldir Aparecido Augusti

– Busque conhecer antes de julgar (24/02/2021)

– Ontem, hoje e amanhã: cada coisa a seu tempo (24/03/2021)

Wilson Lessa

– O sistema endocanabinoide e os transtornos de ansiedade (15/12/2020)

– O transtorno do estresse pós-traumático e o sistema endocanabinoide (09/02/2021)

– Sistema Endocanabinoide e Esquizofrenia (09/03/2021)

– O TDAH e o sistema endocanabinoide (16/04/2021)

Sistema Endocanabinoide, sono e transtornos do sono (10/05/2021)

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

ASSINE NOSSA NEWSLETTER PARA RECEBER AS NOVIDADES

ASSINE NOSSA NEWSLETTER
pt_BRPortuguese
pt_BRPortuguese