Mercado deve ter novos medicamentos de Cannabis só em 2021

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Valéria França

A pandemia global acelerou os negócios da Cannabis no mundo, mas o que se vê no Brasil é um mercado cauteloso, bem diferente da euforia sentida no início do ano. Só para lembrar: em janeiro, algumas empresas alardeavam que estariam com medicamentos nas prateleiras das farmácias nacionais ainda no primeiro semestre. Agora o prazo da maioria é 2021.

O mercado brasileiro começou de fato este ano, depois do primeiro sinal de que o Brasil iria investir no desenvolvimento de uma indústria medicinal à base de Cannabis. Isso foi em dezembro de 2019, quando a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) regularizou a comercialização e fabricação dos medicamentos.

O Brasil está começando um negócio que teve um boom no Canadá e nos EUA em 2018. Estas nações regularizaram toda a cadeia, do cultivo ao produto na gôndola. Produziram novos postos de trabalhos, impostos para o governo e grandes corporações com ações na bolsa de valores de Nova York.

Os empresários brasileiros que hoje estão no negócio assistiram a todos este processo de longe. Não por outro motivo, a regularização da Anvisa criou uma empolgação generalizada, que foi diminuindo ao longo dos meses. Primeiro pelo avanço da Covid-19 no país, e com ela, o clima de incertezas econômicas –além de muita tristeza pelas vidas perdidas. O desafio de captar investimentos ficou ainda maior para as startups da maconha.

Paralelamente, houve também a compreensão da complexidade das regras estipuladas pela Anvisa. São regras farmacêuticas, muito técnicas, tiradas das especificações para medicamentos, em geral. O problema é que poucas startups foram montadas para serem laboratórios.

“No fim de 2019, todos acharam que tínhamos ganhado, mas ninguém levou”, diz Jaime Ozi, que se tornou sócio e vice-presidente de negócios da CanTera e OnixCann, logo depois da publicação da regulação. Antes, Ozi era diretor regional da Spectrum Therapeutics, braço farmacêutico da multinacional Canopy Growth no Brasil.

Se fosse ser realmente exato na afirmação, ele diria que até agora só uma empresa “levou”, a Pratti-Donaduzzi, farmacêutica do Paraná, a primeira e única brasileira a conseguir registrar um medicamento de Cannabis na Anvisa. Isso foi no mês passado.

Os demais concorrentes estão preparando os dossiês farmacêuticos que precisam para obterem o registro. Algumas tiveram de se associar a terceiros para dar conta do recado. Um exemplo é a OnixCann/Can Tera, de Ozi e Marcelo Galvão, que fechou com a Israelense MGC Pharma em março.

Exigências da Anvisa

Segundo as empresas, algumas exigências da Anvisa envolvem processo demorados, caso do teste de estabilidade. “Ele funciona como uma garantia de prazo de validade que vai na caixa do medicamento. A prova atesta que o produto não se altera dentro de seis meses ou um ano e também adverte em que condições de temperatura e umidade deve ser mantido”, explica José Bacellar, da canadense VerdeMed, empresa montada para atuar na América Latina.

O teste de estabilidade é apenas um dos 12 principais pontos desta regulação. A Anvisa chegou a publicar um manual para tentar facilitar a compreensão das normas. As farmacêuticas grandes, como a Aché ou a Prati, possuem o domínio destes meandros técnicos –ao contrário das pequenas empresas que não nasceram com este DNA, mas voltadas apenas às vendas. No caso da Aché, a empresa informou que os planos para a Cannabis medicinal ainda são embrionários.

A regulação da Anvisa caiu como uma bomba também para as multinacionais, que chegaram com muitos planos ao Brasil, caso da canadense Canopy Growth. No Canadá, os médicos prescrevem a Cannabis medicinal como um fitoterápico. Nos EUA, ela recebe a classificação de suplemento alimentar.

Aqui, a Anvisa a enquadra como produto fitofármaco e, depois de cinco anos contados a partir da publicação da norma, passará a ser medicamento. Neste interim, as empresas ganharam um tempo de se adequar. O registro inicial é de produto de Cannabis. Mas possuem até 2025 para realizarem, por exemplo, os testes clínicos– cujos os custos avançam na casa do milhão de reais– e virar medicamento.

As empresas

A reportagem ouviu nove empresas que atuam no mercado nacional para ter ideia sobre o que o consumidor pode esperar no segundo semestre. Sete delas disseram que só no ano que vem conseguirão concluir o processo para atender as demandas para o registro inicial, que permite a comercialização. Duas afirmam estarem batalhando para finalizar o dossiê ainda no segundo semestre. E assim mesmo, há sempre “se a Anvisa” aprovar nas respostas.

“Estamos finalizando a documentação necessária para protocolar o pedido em breve e, dependendo do retorno da Anvisa, teremos produto nas prateleiras até dezembro”, diz Caio Abreu, CEO da Entourage Phytolab.

A agência pode aprovar ou pedir complementos– e disso depende também o tempo que cada empresa vai esperar pelo resultado depois de entrar com a papelada. Quando a Prati encaminhou o pedido, o registro saiu em 40 dias, prazo considerado rápido – ainda mais em tempos de Covid.

De qualquer forma, este ano o mercado ainda não se consolida como a maioria imaginou que aconteceria– oferecendo mais opções de produtos e preços aos consumidores.

Hoje existem apenas dois medicamentos de Cannabis registrados nas drogarias. Um importado, o Mevatyl, do laboratório inglês GW Pharma. O outro é o da Prati, já citada. Cada um custa em média R$ 2.500.

Para esta matéria foram ouvidas as empresas VerdeMed, Canopy Growth, Entourage Phytolab, HempCare, HempMeds, Indeov, Aché, OnixCann/Can Tera e GreenCare. A Anvisa também foi procurada, mas ela não retornou até o fechamento da matéria.

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