Afinal, a cannabis é tão milagrosa assim? Entenda o que diz a ciência
Em meio à popularização da cannabis medicinal, especialista reforça a importância de informação qualificada, acompanhamento médico e alinhamento de expectativas
Publicada em 08/04/2026

Planta de cannabis utilizada em estudos sobre cannabis medicinal e seus efeitos terapêuticos | CanvaPro
Há quem chegue à cannabis medicinal depois de muitas tentativas frustradas. Há também quem a encontre no meio do caminho, como uma nova possibilidade. Em comum, quase sempre, está a expectativa, às vezes silenciosa, às vezes urgente, de que ali exista uma resposta definitiva.
No consultório, no entanto, o que se constrói costuma ser diferente do imaginário. Entre ciência, acompanhamento e individualidade, a cannabis deixa de ocupar o lugar de promessa para se firmar como aquilo que, de fato, é: uma ferramenta terapêutica.
Cannabis medicinal não é solução universal, explica médica

Com o avanço do debate e o aumento da visibilidade, a cannabis medicinal passou a ser associada, muitas vezes, a uma ideia de solução ampla. Na prática clínica, porém, esse entendimento precisa ser ajustado.
É o que explica, em entrevista, a médica Lívia Spala, especialista em cannabis medicinal com experiência clínica em autismo.
“A cannabis medicinal não é uma cura universal porque nenhuma intervenção terapêutica é eficaz para todos os pacientes ou todas as doenças. Pode acontecer dos efeitos variarem de paciente para paciente, e há casos das condições não responderem ao tratamento de acordo com o esperado. Ou seja, a Cannabis Medicinal é uma ferramenta terapêutica, e é importante alinhar com o profissional as expectativas com evidências”, pontua a Dra.
Sistema endocanabinoide: como a cannabis atua no organismo
Entender como a cannabis atua no organismo passa, necessariamente, pelo sistema endocanabinoide, um mecanismo biológico essencial para o equilíbrio do corpo.
“O sistema endocanabinoide é um sistema biológico que regula funções, como: humor, sono, dor, apetite e resposta ao estresse. Ele funciona por meio dos receptores (CB1 e CB2), produzidos pelo próprio corpo e enzimas reguladoras”, explica.
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A interação com os compostos da planta ajuda a compreender seus efeitos terapêuticos. “Os fitocanabinoides da Cannabis (como THC e CBD) interagem com esse sistema, promovendo efeitos ansiolíticos, anti-inflamatórios e analgésicos”, complementa Lívia.
Riscos do uso de cannabis sem orientação médica
Apesar dos avanços no acesso à informação, o uso da cannabis sem acompanhamento profissional ainda exige atenção, especialmente em contextos de saúde mental.
“O uso sem acompanhamento médico pode trazer riscos importantes, como por exemplo: risco de interação medicamentosa, uso de produtos sem controle de qualidade ou concentração e cautela em pacientes com diagnóstico de esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e ideação suicida devido ao desencadeamento de episódios psicóticos (especialmente com THC)”, afirma.
Dose, tipo de canabinoide e acompanhamento fazem diferença
Outro ponto central no tratamento é a individualização da prescrição, que envolve desde a escolha do composto até o acompanhamento contínuo.
“O tipo de Cannabinoide, dosagem e acompanhamento serão definidos de acordo com a clínica, queixa principal e diagnóstico do paciente. Ao longo do tratamento, essa dosagem será revista e prescrita de acordo com os resultados vistos ao longo do acompanhamento”, explica a médica.
Com o crescimento do interesse pelo tema, a circulação de informações sem base científica também se intensifica, o que exige atenção redobrada por parte de pacientes e familiares.
“Com a popularização, surgem muitos mitos. Confiem em mais estudos clínicos e profissionais de saúde qualificados no assunto”, finaliza.


