Autistas Cruzeirenses: unidos pelo amor ao time e pela inclusão

Em pouco mais de um ano, mais de 30 famílias mineiras se juntam pelo amor ao time e na luta pela inclusão

Publicada em 14/09/2023

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Por Thaís Castilho

Inspirada pela torcida de Autistas Alvinegros, do clube Corinthians, Karina Salas, uma torcedora convicta do Cruzeiro e mãe de uma criança com TEA  (Transtorno de Espectro Autista), também apaixonada pelo time, começou o movimento de criar a torcida de Autistas Cruzeirenses.

“Meu irmão me deu a ideia de organizar a torcida de Autistas Cruzeirenses. Eu mandei e-mail pro time, pois não começaria esse movimento sem o aval oficial deles. Um tempo depois, a diretoria me respondeu positivamente, dizendo que aprovaram e que dariam apoio. Então abrimos uma página no instagram e pessoas interessadas começaram a procurar a gente e a torcida foi crescendo”, conta Karina Salas, idealizadora e fundadora da torcida. 

O mais interessante nessa história é que além do apoio do time, foi a torcida de Autistas do Galo, time mineiro rival do Cruzeiro, que teve um papel importante na formação da torcida dos Autistas Cruzeirenses.

“Embora a rivalidade dos times seja grande, a causa em torno dessas torcidas especiais é muito maior, por isso procurei os representantes da torcida dos Autistas do Galo para saber mais sobre o movimento e eles me abriram as portas. É como se eu tivesse ganhado uma outra família. Somos, ao total, 22 torcidas de autistas pelo Brasil”, explica Karina.

A principal proposta dessas torcidas é unir o amor pelo futebol e a defesa da luta pela inclusão. Uma oportunidade de conscientizar sobre a diversidade e a importância de incluir essas pessoas dentro dos clubes através das torcidas.

O Cruzeiro foi pioneiro em criar um Comitê de Torcedores composto por um representante de cada segmento da torcida e Karina foi escolhida para representar a categoria das minorias sociais e da diversidade. A ideia é que esses representantes levem ao comitê projetos e propostas para melhorar a interação do clube com esses grupos. 

Uma outra ação do Cruzeiro em prol da torcida é proporcionar o contato dos apaixonados torcedores com o estádio e com os jogadores, pois, geralmente, pessoas com TEA têm sensibilidade auditiva e não toleram barulhos e multidão. Portanto, em dia de jogo, é impossível essas pessoas acompanharem a partida ao vivo no Mineirão.

Torcedores em tratamento com cannabis fazem parte dos Autistas Cruzeirenses

Como psicopedagoga, Karina trabalha com pessoas TEA, de outras comorbidades ou síndromes, além de acompanhar vários casos em que a cannabis traz qualidade de vida e bem estar para os seus pacientes. 

“Eu vejo no meu trabalho com neuro psicopedagogia e psicomotricidade que os resultados dos pacientes que fazem tratamento com cannabis são muito grandes e positivos, diminuindo muito as crises e melhorando a qualidade de vida de toda a família”, destaca Karina.

Um dos torcedores do Autistas Cruzeirenses é o Brenno, de 19 anos. Ele foi diagnosticado com autismo de nível três e nasceu com esquizencefalia (má formação cerebral), o que dificulta o efeito esperado dos medicamentos.

Há cerca de um ano, o psiquiatra que acompanha Brenno, indicou a cannabis como terapia, já que o uso contínuo de medicamentos convencionais desde os oito meses de idade, gerou uma resistência de seu próprio organismo para os efeitos esperados.

“O canabidiol veio como uma última tentativa de tratamento. Brenno teve uma melhora em seu comportamento agressivo muito significativa. Além disso, o remédio não causa dependência, essa era uma grande preocupação minha. Brenno toma ainda sete medicamentos diferentes e a proposta é de em algum momento começar o desmame, pouco a pouco”, destaca Alviclenia Lopes Pita da Silva, mãe do Brenno.