Importação de produtos à base de cannabis bate novo recorde e mantém curva histórica de crescimento no Brasil

Alta histórica nas autorizações da Anvisa consolida a cannabis medicinal no Brasil e reforça tendência de expansão contínua do acesso via importação.

Publicada em 06/03/2026

Análise da minuta de atualização da RDC sobre produtos de cannabis – Anvisa

Imagem Ilustrativa

 

O número de autorizações para importação de produtos derivados de cannabis no Brasil segue em trajetória ascendente e atingiu um novo recorde em 2025. De acordo com dados oficiais da Anvisa, o total acumulado neste ano já chegou a 194.682 autorizações, superando o recorde anterior registrado em 2024, quando foram contabilizadas 167.337 autorizações.

O avanço reforça a consolidação da cannabis medicinal como alternativa terapêutica no país e evidencia a expansão do acesso via importação excepcional, regulamentada pela RDC nº 660/2022.

Crescimento exponencial em uma década

A evolução histórica impressiona. Em 2015, primeiro ano da série apresentada, o Brasil registrou apenas 850 autorizações. Dez anos depois, o volume multiplicou-se mais de 200 vezes.

Veja a progressão do total anual:

 

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O salto mais expressivo ocorreu entre 2020 e 2022, período em que o número de autorizações praticamente quadruplicou. Desde então, o crescimento se mantém consistente, ainda que em ritmo mais estável, consolidando uma base estrutural de pacientes ativos.

2025 já supera todos os anos anteriores

Os dados mensais de 2025 mostram patamar elevado ao longo de todo o ano. Apenas em outubro foram registradas 19.710 autorizações, um dos maiores volumes mensais da série histórica. Novembro (18.570) e dezembro (16.987) também figuram entre os meses mais robustos já contabilizados.

O desempenho indica não apenas aumento de novos pacientes, mas também renovação de autorizações — que têm validade de dois anos — mantendo a curva em expansão.

O que os números revelam

A autorização da Anvisa permite que pessoas físicas importem produtos à base de cannabis para uso próprio, mediante prescrição médica. A agência reforça que não fornece os produtos, apenas autoriza a importação, e que os itens não possuem registro sanitário no Brasil, sendo o uso de responsabilidade do paciente e do profissional prescritor.

O crescimento constante das autorizações sinaliza:

  • Maior adesão médica à terapia canabinoide
  • Ampliação do número de pacientes em acompanhamento
  • Consolidação de protocolos clínicos
  • Aumento da confiança no tratamento

Recorde histórico e tendência para 2026

Com 2025 estabelecendo um novo recorde anual, o mercado brasileiro de cannabis medicinal entra em 2026 com perspectiva de expansão contínua. A manutenção da curva ascendente pode estar associada a fatores como:

  • Maior disseminação de informação científica
  • Atuação de associações de pacientes
  • Debates regulatórios sobre cultivo nacional e produção local
  • Judicializações que ampliam o acesso

O total acumulado da série histórica já soma 653.120 autorizações, demonstrando que o uso terapêutico da cannabis deixou de ser nicho para se tornar realidade consolidada na saúde brasileira.

O desafio agora é entender se o país seguirá dependente da importação excepcional ou se avançará para um modelo regulatório que incentive produção nacional, redução de custos e maior previsibilidade sanitária.

O recorde de 2025 pode não ser apenas um número — pode ser o indicativo de uma nova fase para a cannabis medicinal no Brasil. É pensa alguns atores do mercado, como será abordado a seguir.

 

Feira passará a chamar Cannabis Fair e ampliará foco para uso industrial e cultivo da planta
Cannabis Fair 2026

 

O avanço do setor também tem sido impulsionado por eventos que conectam os diferentes agentes da cadeia produtiva. A Cannabis Fair, considerada uma das principais feiras de negócios do setor na América Latina, chega em 2026 à sua 5ª edição, consolidando-se como um espaço estratégico para impulsionar o mercado da cannabis medicinal no Brasil. Em um cenário marcado pelo crescimento da importação de produtos à base de cannabis, a feira reúne empresas, profissionais da saúde, prescritores, pesquisadores e investidores, além de apresentar novas tecnologias, tendências terapêuticas e diferentes variedades de produtos disponíveis no mercado internacional. A edição de 2026 acontece de 21 a 23 de maio, no Transamerica Expo Center, em São Paulo, e deve reunir milhares de participantes interessados nas oportunidades de expansão do setor. As inscrições para visitantes já estão abertas e empresas interessadas em expor suas marcas, produtos e soluções também podem garantir participação, ampliando conexões estratégicas com o mercado. Mais informações estão disponíveis no site oficial da feira: Cannabis Fair Brasil.

 



Especialistas apontam maturidade do setor e avanço da educação médica

 

 

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Eduardo Ayres, CEO da Leaf Medical Care

Na avaliação de Eduardo Ayres, CEO da Leaf Medical Care, o crescimento contínuo do número de autorizações para importação de cannabis medicinal reflete uma transformação gradual no entendimento da terapia dentro da comunidade médica brasileira.

Segundo ele, o avanço regulatório e a ampliação do debate científico contribuíram para colocar o tema em evidência no país.

“O Brasil vive um momento de importantes avanços regulatórios no setor, colocando o tema em evidência e consolidando a cannabis como uma alternativa terapêutica notavelmente eficaz e cada vez mais estudada e aplicada pela classe médica”, afirmou.

Ayres explica que, nos primeiros anos da regulamentação, as prescrições estavam concentradas em um número reduzido de patologias e geralmente eram direcionadas a pacientes que já haviam esgotado as alternativas terapêuticas convencionais.

Com o amadurecimento do mercado e o avanço da produção científica, esse cenário começou a mudar.

“Inicialmente, as prescrições eram mais restritas a algumas patologias específicas e, principalmente, a casos refratários aos tratamentos convencionais. Com o avanço do conhecimento científico e da experiência clínica, esse cenário começou a mudar”, disse.

Hoje, de acordo com o executivo, médicos de diferentes especialidades passaram a incorporar os canabinoides como ferramenta terapêutica complementar em diversas condições de saúde — movimento que amplia o universo potencial de pacientes.

“Já vemos médicos de diversas especialidades, inclusive odontólogos, utilizando a cannabis como uma ferramenta terapêutica adicional no tratamento de diferentes condições de saúde”, destacou.

Para Ayres, um dos principais motores desse crescimento é a educação médica continuada. O aumento de cursos, congressos e programas de capacitação tem reduzido barreiras históricas relacionadas ao desconhecimento sobre o sistema endocanabinoide e ao receio de prescrição.

“Grande parte desse avanço está relacionada à educação médica e à capacitação de profissionais que vêm se especializando no tema. Quanto mais informação qualificada e embasamento científico chegam aos profissionais de saúde, maior é a segurança para prescrever e avaliar os resultados clínicos”, explicou.

Esse movimento, segundo ele, cria um efeito multiplicador dentro do próprio sistema de saúde.

“Esse processo acaba criando um ciclo positivo: cada vez mais médicos capacitados, mais pacientes informados e um interesse crescente por alternativas terapêuticas que possam melhorar a qualidade de vida”, afirmou.

Ayres também observa que a cannabis tem sido buscada como estratégia de redução de danos farmacológicos, especialmente em tratamentos de longa duração.

“Muitas vezes, os pacientes procuram alternativas que reduzam os efeitos adversos associados ao uso excessivo de medicamentos alopáticos. Nesse cenário, a cannabis medicinal vem se consolidando como uma opção relevante”, acrescentou.

 

Mercado internacional observa expansão do Brasil

 

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 Juan Fernando Romero, CEO da Carmen's Medicinals

A leitura de crescimento também é compartilhada por executivos que acompanham o mercado brasileiro a partir de operações internacionais. Para Juan Fernando Romero, CEO da Carmen's Medicinals, o Brasil tornou-se um dos mercados mais promissores do mundo no segmento de cannabis medicinal.

Na avaliação dele, o aumento constante das autorizações demonstra que o país está passando por um processo de estruturação gradual da demanda, impulsionado por três fatores principais: crescimento da base de pacientes, maior conhecimento médico e expansão das empresas especializadas no atendimento desse público.

Segundo Romero, o modelo de importação excepcional previsto na RDC nº 660/2022 tem funcionado como porta de entrada para o acesso, permitindo que pacientes brasileiros tenham contato com terapias já consolidadas em outros mercados.

Para o executivo, o crescimento das autorizações indica que o Brasil começa a replicar um padrão observado em outros países que regulamentaram a cannabis medicinal.

“O que vemos no Brasil hoje é um movimento semelhante ao que ocorreu em mercados que amadureceram nos últimos anos: primeiro cresce o número de pacientes via importação, depois surgem estruturas mais robustas de distribuição e produção”, avaliou.

Ele acrescenta que o tamanho da população brasileira e o perfil epidemiológico do país criam um potencial significativo de expansão para a terapia canabinoide.

Na visão de Romero, se o país avançar em etapas regulatórias futuras — como produção nacional ou ampliação de categorias de produtos — o mercado poderá atingir um novo patamar.

Análise do setor aponta consolidação e nova fase de expansão

 

Para este seguimento do setor, os números registrados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária refletem mais do que o aumento pontual de autorizações. Na prática, eles indicam uma mudança estrutural na forma como a cannabis medicinal vem sendo incorporada ao sistema de saúde brasileiro.

Eduardo Ayres observa que o crescimento tende a continuar à medida que mais profissionais de saúde se familiarizam com a terapia e ampliam sua utilização em diferentes especialidades médicas.

“Estamos diante de um processo gradual de amadurecimento do setor. À medida que mais profissionais se capacitam e mais pacientes conhecem os resultados clínicos da terapia, a tendência natural é de expansão”, avaliou.

Já Juan Fernando Romero ressalta que o Brasil reúne características que podem transformá-lo em um dos principais mercados globais de cannabis medicinal nos próximos anos, sobretudo se houver avanços regulatórios que reduzam barreiras de acesso.

Para ele, o crescimento da base de pacientes e o fortalecimento da cadeia de empresas especializadas indicam que o país caminha para uma nova etapa de desenvolvimento do setor.

Na leitura conjunta dos entrevistados, o recorde alcançado em 2025 pode representar o início de um ciclo mais amplo de consolidação da cannabis medicinal no país — marcado por maior aceitação médica, expansão da demanda e possíveis avanços regulatórios que ampliem o acesso da população aos tratamentos.

 

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