Brasil tem potencial para superar os EUA no mercado de hempcrete, mas falta regulamentação
Apesar de vantagens agrícolas, país ainda não consegue avançar na produção do concreto de cânhamo usado na construção sustentável
Publicada em 16/01/2026

Análises técnicas indicam que o Brasil possui condições de solo e clima para não apenas competir, mas superar a produtividade norte-americana. Imagem: Canva Pro
O mercado de hempcrete (concreto de cânhamo) nos Estados Unidos vive uma fase de expansão acelerada. Projeções indicam que o setor deve atingir US$ 10,6 bilhões até 2033, impulsionado pela Lei Agrícola (Farm Bill) de 2018.
No entanto, análises técnicas indicam que o Brasil possui condições de solo e clima para não apenas competir, mas superar a produtividade norte-americana. O entrave, segundo especialistas, reside exclusivamente na ausência de uma regulamentação específica para o cultivo industrial no país.

O potencial do hempcrete no agronegócio brasileiro
Rodrigo Segamarchi, engenheiro industrial e fundador da Hempowe, avalia que o agronegócio brasileiro tem diferenciais competitivos únicos. Segundo ele, as condições naturais favorecem a produção em larga escala de matéria-prima para o hempcrete.
“O Brasil tem solo, clima e escala agrícola únicos, além de janelas de safra que podem permitir um a dois ciclos por ano em regiões específicas. Em termos de custo agrícola e logística interna, temos condições para ser extremamente competitivos”, afirma.
Regulamentação trava a indústria do hempcrete
A principal disparidade entre os dois países não é técnica, mas legislativa. Os EUA consolidaram sua cadeia produtiva após a retirada do cânhamo da lista de substâncias controladas, permitindo o avanço do setor.
Enquanto isso, o Brasil ainda carece de regras claras para o plantio em escala industrial. Segamarchi projeta que, uma vez superada a barreira legal, a resposta do setor produtivo de hempcrete seria rápida.
“Com marco regulatório claro, a cadeia poderia ganhar tração rapidamente: 12 a 18 meses para pilotos regionais com produtores âncora e três a cinco anos para atingir escala nacional competitiva”, explica o engenheiro.
Desafios de produção para o hempcrete
Para a construção civil, o foco do cultivo difere substancialmente do uso medicinal. O interesse recai sobre o miolo lenhoso do caule, o que exige plantas altas e colheita mecanizada antes da maturação das sementes.
O gargalo agrícola imediato no Brasil é o acesso a sementes certificadas para garantir a qualidade do hempcrete. “Precisamos de genética certificada adaptada às nossas latitudes para estabilizar produtividade, garantir teor de THC dentro de limites e reduzir risco agronômico”, destaca Segamarchi.
Além da genética, a logística de processamento é crítica. Como a matéria-prima é volumosa, a solução apontada envolve a descentralização da indústria, priorizando hubs de processamento próximos à produção.
Cenário de mercado nos Estados Unidos
Enquanto o Brasil aguarda definições, os Estados Unidos avançam na consolidação do mercado. O impulso vem da demanda por materiais sustentáveis, já que o hempcrete sequestra carbono durante o cultivo e na vida útil da obra.
Segundo relatórios recentes, o setor nos EUA deve crescer a uma taxa anual de 3,86% na próxima década. O governo norte-americano já investe em projetos de retrofit utilizando a tecnologia, sinalizando apoio à resiliência climática.
Para o Brasil, a oportunidade reside em aprender com a curva de desenvolvimento norte-americana, mas com a vantagem de um agronegócio mais potente. “Orientamos protocolos agronômicos específicos para construção e parcerias atreladas a métricas de qualidade”, finaliza Segamarchi.



