O transtorno do estresse pós-traumático e o sistema endocanabinoide

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Segundo Lessa, o TEPT acomete até 13,6% da população mundial. E e essa alta prevalência, associada à sua gravidade e impacto psicossocial, o torna um grave problema de saúde pública. (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Wilson Lessa*

Durante a existência do Homo sapiens, uma adaptação comportamental frente ao estresse ( de várias origens ) foi crucial para a sobrevivência da espécie. Todavia, a vivência pessoal ou observacional de traumas (acidentes, sequestros, estupros, guerras, pandemia) em que a percepção da morte ou agressão grave são impactantes, podem exceder nossa capacidade de enfrentamento emocional e cognitivo, cursando com o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT).

Desse modo, quando nos deparamos com situações traumáticas, nossa capacidade adaptativa e estratégias de enfrentamento podem nos levar tanto a reações saudáveis como a manutenção do estado emocional pré-trauma e mesmo um crescimento pós-traumático, tanto quanto a reações patológicas (mal-adaptativas), tais quais um episódio psicótico, um transtorno depressivo, ansioso, estresse agudo e o TEPT.

Quando nos deparamos com situações traumáticas, nossa capacidade adaptativa e estratégias de enfrentamento podem nos levar tanto a reações saudáveis como a manutenção do estado emocional pré-trauma e mesmo um crescimento pós-traumático, tanto quanto a reações patológicas, tais quais um episódio psicótico, um transtorno depressivo, ansioso, estresse agudo e o TEPT.

Dentre os sintomas do TEPT destacamos os ditos sintomas intrusivos (lembranças do trauma, pesadelos e memórias involuntárias), a evitação persistente (esquiva a estímulos externos e internos relacionados ao trauma) e alterações negativas na cognição e no humor (amnésia dissociativa, falta de prazer, culpa patológica e isolamento).

O TEPT acomete até 13,6% da população mundial. Essa alta prevalência, associada à sua gravidade e impacto psicossocial, o torna um grave problema de saúde pública. Acomete diversos circuitos cerebrais e sua neuroquímica, o sistema imune, cardiovascular, endócrino e metabólico. E, por aumentar o risco de desenvolvimento de doenças crônicas, envelhecimento e mortalidade precoce, já foi chamado de “sentença para a vida.”

Além disso, é um fator de risco para o desenvolvimento de demência, havendo uma associação dose-dependente entre esses dois transtornos – isso quer dizer que quanto mais graves os sintomas de TEPT, maior risco de demência.

Pacientes com TEPT apresentam mais pensamentos e comportamentos suicidas do que a população geral, e são considerados de alto risco de suicídio. Esse risco aumenta ainda mais com a presença de comorbidades psiquiátricas (sobreposição de outros transtornos mentais), que dependendo da população estudada, ocorre em 44 a 98,9% dos pacientes.

Pacientes com TEPT apresentam mais pensamentos e comportamentos suicidas do que a população geral, e são considerados de alto risco de suicídio. Esse risco aumenta ainda mais com a presença de comorbidades psiquiátricas (sobreposição de outros transtornos mentais), que dependendo da população estudada, ocorre em 44 a 98,9% dos pacientes.

Apesar do enorme prejuízo e incapacidade causados pelo TEPT, muitas pessoas que sofrem com o transtorno, surpreendentemente, não procuram tratamento – em países desenvolvidos, apenas 53,4% das pessoas procuram tratamento psiquiátrico ou psicológico, enquanto nos países com renda média-alta esse índice seja de 28,7% e nos de renda baixa-baixa apenas 22,8% das pessoas acometidas procuram assistência.

E, mesmo quando os indivíduos procuram tratamento, o transtorno, com frequência não é diagnosticado e, consequentemente, não é tratado. Em todo o mundo, apenas 2 a 4% dos casos são diagnosticados pelos médicos, tanto em consultórios privados como em ambulatórios de instituições acadêmicas.

Mesmo quando o paciente procura tratamento e é corretamente diagnosticado, ainda há grande dificuldade, pois o transtorno é extremamente resistente à farmacoterapia ortodoxa – as taxas de resposta às medicações raramente ultrapassam 60% e menos de 30% dos pacientes alcançam a remissão completa dos sintomas.

Mesmo quando o paciente procura tratamento e é corretamente diagnosticado, ainda há grande dificuldade, pois o transtorno é extremamente resistente à farmacoterapia ortodoxa – as taxas de resposta às medicações raramente ultrapassam 60% e menos de 30% dos pacientes alcançam a remissão completa dos sintomas.

No livro texto de Psiquiatria Kaplan and Sadock’s em sua 10º edição de 2017, temos a informação de que medicações que estão sendo desenvolvidas para o TEPT estão focando em componentes que atuam no sistema endocanabinoide.

No final da Guerra do Vietnã, aproximadamente 50% dos soldados norte-americanos utilizavam regularmente Cannabis no intuito de aliviar sintomas traumáticos. Entre os efeitos mais proeminentes da exposição à maconha em humanos estão aqueles relacionados ao comportamento emocional, humor e ansiedade – é frequentemente usada pala relaxar.

No final da Guerra do Vietnã, aproximadamente 50% dos soldados norte-americanos utilizavam regularmente Cannabis no intuito de aliviar sintomas traumáticos. Entre os efeitos mais proeminentes da exposição à maconha em humanos estão aqueles relacionados ao comportamento emocional, humor e ansiedade – é frequentemente usada pala relaxar.

Consequentemente, desde que o THC foi isolado (1964) e descoberto como o ingrediente psicoativo da planta, as primeiras investigações experimentais deste fitocanabinoide focaram no humor e ansiedade.

De modo simplificado, a ativação do receptor canabinoide CB1 (localizado principalmente mas não exclusivamente no sistema nervoso central) é crítica para a regulação dos sistemas corporais para dar sinal à resposta de estresse – lembrando que a anandamida (um dos nossos canabinoides endógenos), assim como o THC é um agonista (ativador) parcial fraco desses receptores CB1.

Evidências recentes sugerem que tratamentos que potencializam a sinalização endocanabinoide podem ser um tratamento promissor para o TEPT.

Estudos laboratoriais com animais comprovam a redução da tensão com baixas doses de THC (efeito ansiolítico), mas a administração crônica de altas doses de THC produz efeitos ansiogênicos e respostas neuroendócrinas compatíveis ao estresse agudo em ratos.

Estudos laboratoriais com animais comprovam a redução da tensão com baixas doses de THC (efeito ansiolítico), mas a administração crônica de altas doses de THC produz efeitos ansiogênicos e respostas neuroendócrinas compatíveis ao estresse agudo em ratos.

Por outro lado, o canabidiol (CBD), um fitocanabinoide não-intoxicante é bem tolerado por seres humanos ao longo de uma ampla janela terapêutica – até 1.500 mg por dia (oral) – sem retardo psicomotor, efeitos negativos no humor ou anormalidades nos sinais vitais – apresenta um amplo perfil farmacológico, incluindo interação com diversos receptores conhecidos por regular o medo e comportamentos ansiosos, incluindo o receptor CB1, 5-HT1a (serotonina) e o receptor vaniloide do tipo TRPV1.

Assim como o THC, o CBD tem sido relatado por reforçar a extinção da resposta de medo condicionado, o que sugere que isto poderia ser efetivo no tratamento do TEPT, sem os efeitos psicoativos indesejados do THC.

A descoberta do sistema endocanabinoide no final dos anos 80 e do mapeamento dos receptores canabinoides tem revelado que os mesmos são expressos em altos níveis na amígdala cerebral, que controla a ansiedade, memória do medo e a resposta emocional ao estresse.

Em um estudo observacional de 2009, O THC sintético nabilona mostrou reduzir a frequência de pesadelos e reduzir flashbacks durante o dia em um grupo de veteranos de guerra, o que sugere que a Cannabis antes de dormir pode ser um tratamento benéfico para pacientes com TEPT – quando esses receptores são ativados naturalmente pelos endocanabinoides ou pelo THC, há uma redução na ansiedade e diminuição dos sintomas do TEPT.

Para alcançarmos uma resposta normal ao medo e às memórias traumáticas resultantes, um funcionamento apropriado do sistema endocanabinoide deve estar presente – baixo níveis do endocanabinoide Anandamida foram encontrados em indivíduos com TEPT em um estudo feito por Neumeister em 2013.

Para alcançarmos uma resposta normal ao medo e às memórias traumáticas resultantes, um funcionamento apropriado do sistema endocanabinoide deve estar presente – baixo níveis do endocanabinoide Anandamida foram encontrados em indivíduos com TEPT em um estudo feito por Neumeister em 2013.

Em 2013, com a criação da Agência Israelense de Cannabis Medicinal, ligada ao Ministério da Saúde de Israel, o TEPT foi uma das 12 condições patológicas que receberam autorização para o uso de Cannabis.

Um estudo observacional com 162 pacientes em 2016, tratados pra TEPT em Israel com Cannabis demonstrou que 96% dos pacientes que foram acompanhados durante 6 meses de tratamento, experimentaram uma moderada ou significativa melhora nos sintomas.

Dois estudos clínicos randomizados, triplo-cegos, controlados por placebo, relacionados ao uso da Cannabis in natura, foram realizados recentemente nos EUA e Canadá – ainda não foram publicados, mas os resultados iniciais são animadores – um realizado pela Psiquiatra e pesquisadora Sue Sisley (Arizona) e o outro pelo Psicólogo e pesquisador Zach Welsh (Canadá).

No Brasil, um grande estudo epidemiológico realizado por Luz et al (2016), investigou a prevalência de eventos traumáticos e seus riscos condicionais em mais de 2.500 voluntários (da população geral) da cidade de São Paulo e 1.200 voluntários da cidade do Rio de Janeiro. Esse estudo mostrou que, no Brasil, 90% dos homens e 84,8% das mulheres são expostos a algum evento traumático durante suas vidas, apresentando um risco condicional – porcentagem de indivíduos que desenvolve o TEPT após a exposição a um determinado evento traumático – de 11%.

Desse modo, é imprescindível que haja mais estudos com os fitocanabinoides em relação ao tratamento do TEPT, dado a alta refratariedade do quadro frente as abordagens terapêuticas hoje disponíveis e dos estudos pré-clinicos e clínicos já disponíveis demonstrarem um bom potencial terapêutico dos canabinoides frente ao impacto dos traumas em nossas vidas.

Desse modo, é imprescindível que haja mais estudos com os fitocanabinoides em relação ao tratamento do TEPT, dado a alta refratariedade do quadro frente as abordagens terapêuticas hoje disponíveis e dos estudos pré-clinicos e clínicos já disponíveis demonstrarem um bom potencial terapêutico dos canabinoides frente ao impacto dos traumas em nossas vidas.

E como bem disse o médico e pesquisador Albert Sabin, conhecido por ter desenvolvido a vacina oral para a poliomielite: “um cientista que também é um ser humano não deve descansar enquanto o conhecimento que pode ser usado para reduzir o sofrimento, descansa nas prateleiras.” 

*Wilson Lessa é Médico Psiquiatra, Psiquiatra Forense, professor da faculdade de Medicina da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e colunista do Sechat

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e não correspondem, necessariamente, à posição do Sechat.

Veja outros artigos de nossos colunistas: 

Alex Lucena 

– Inovação e empreendedorismo na indústria da Cannabis (19/11/2020)

– Inovar é preciso, mesmo no novo setor da Cannabis (17/12/20) 

Marcelo de Vita Grecco

– Cânhamo é revolução verde para o campo e indústria (29/10/2020)

– Cânhamo pode proporcionar momento histórico para o agronegócio brasileiro (26/11/2020)

– Brasil precisa pensar como um país de ação, mas agir como um país que pensa (10/12/2020)

– Por que o mercado da cannabis faz brilhar os olhos dos investidores? (24/12/2020)

– Construção de um futuro melhor a partir do cânhamo começa agora (07/01/2021)

– Além do uso medicinal, cânhamo é porta de inovação para a indústria de bens de consumo (20/01/2021)

Cannabis também é uma questão de bem-estar (04/02/2021)

Ricardo Ferreira

– Da frustração à motivação (03/12/2020)

– Angels to some, demons to others (31/12/2020)

 Efeitos secundários da cannabis: ônus ou bônus? – (28/01/2021)

Paulo Jordão

– O papel dos aparelhos portáteis de mensuração de canabinoides (08/12/2020)

– A fórmula mágica dos fertilizantes e a produção de canabinoides (05/01/2021)

– Quanto consumimos de Cannabis no Brasil? (02/02/2021)

Wilson Lessa

– O sistema endocanabinoide e os transtornos de ansiedade (15/12/2020)

Fabricio Pamplona

– Os efeitos do THC no tratamento de dores crônicas (26/01/2021)

Pedro Sabaciauskis

– O papel fundamental das associações na regulação da “jabuticannábica” brasileira (03/02/2021)

Compartilhe:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

ASSINE NOSSA NEWSLETTER PARA RECEBER AS NOVIDADES

ASSINE NOSSA NEWSLETTER
pt_BRPortuguese
pt_BRPortuguese