Estudo da USP revela efeitos contra depressão e neuropatia
Pesquisa da USP com modelo animal revela que o canabidiol (CBD) pode aliviar simultaneamente dor neuropática e sintomas de depressão, mostrando-se uma alternativa terapêutica promissora frente a medicamentos tradicionais
Publicada em 29/07/2025

O Canabidiol (CBD) pode ser ponte terapêutica | Foto: Divulgação
O canabidiol (CBD), composto extraído da cannabis, demonstrou ser eficaz no alívio simultâneo da dor neuropática e da depressão, ao menos em um modelo animal. É o que diz o estudo, conduzido por uma equipe de pesquisadores da USP em Ribeirão Preto e publicado na revista Neuroscience and Behavioral Physiology, que comparou os efeitos do CBD aos da fluoxetina, medicamento amplamente utilizado no tratamento da depressão.
A diferença chamou atenção: enquanto a fluoxetina atuou exclusivamente nos sintomas depressivos, o CBD apresentou ação dupla, com efeitos antidepressivos e analgésicos, especialmente em doses mais elevadas. Uma combinação que, segundo a pesquisadora Priscila Medeiros de Freitas, pode representar um novo capítulo na história dos tratamentos integrados.
Quando um remédio trata mais do que uma dor
A ideia de que uma única molécula possa cuidar, ao mesmo tempo, de corpo e mente parece quase utópica. Mas é isso que o CBD está mostrando. “Os tratamentos convencionais frequentemente tratam a dor e os transtornos afetivos de forma dissociada, o que demanda o uso concomitante de múltiplos fármacos. Isso aumenta o risco de efeitos adversos, interações medicamentosas e reduz a adesão terapêutica”, explica Priscila, pesquisadora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.
Para quem convive com dor crônica e depressão, duas condições que se alimentam mutuamente, a descoberta de um composto que atue de maneira integrada representa mais que um avanço científico. É um convite à esperança.
Dosagem e desafio: o caminho até o humano
Nos experimentos realizados com ratos que sofreram lesão no nervo isquiático (ciático), os pesquisadores observaram que a dose mais alta de CBD (30 mg/kg) foi a que apresentou os efeitos analgésicos mais consistentes. A fluoxetina, por sua vez, manteve sua eficácia apenas nos sintomas depressivos.
Apesar do entusiasmo, Priscila lembra que há um percurso a ser trilhado antes que esses resultados possam ser aplicados em humanos. “A definição de uma dose segura e eficaz requer ensaios clínicos faseados, com rigor metodológico. Precisamos garantir segurança, eficácia e previsibilidade terapêutica, principalmente em pacientes com condições tão complexas”, destaca.
Tratamento não é receita de bolo
Em tempos de soluções rápidas, é preciso ressaltar que a medicina personalizada e integrada exige cautela. “Não se trata de substituir os tratamentos já existentes, mas de somar. O CBD pode representar mais uma possibilidade dentro do arsenal farmacológico, especialmente para quem não responde bem aos medicamentos tradicionais ou sofre com seus efeitos colaterais”, pontua a pesquisadora.
E, nesse cenário, o CBD pode brilhar especialmente em casos de dor crônica associada a sintomas depressivos, um quadro comum e frequentemente subtratado.
Uma das contribuições mais valiosas do estudo foi a escolha de um modelo animal que simula condições reais e complexas, como a neuropatia combinada à depressão. A abordagem multidimensional incluiu testes que medem desde a resposta à dor até sintomas comportamentais relacionados à depressão e à anedonia, a perda da capacidade de sentir prazer.
“Combinar métodos como o teste de nado forçado e o de preferência por sacarose permite uma avaliação mais sensível e translacional da eficácia dos tratamentos”, explica Priscila. “É justamente essa combinação de testes que fortalece a aplicabilidade dos achados na clínica humana, onde dor e sofrimento emocional andam, muitas vezes, de mãos dadas”.
O que falta para o CBD chegar ao SUS?

Apesar do entusiasmo em torno do canabidiol, o caminho até sua inclusão em protocolos do SUS ainda depende de pilares importantes: mais estudos clínicos, produção nacional e, talvez o mais difícil, uma mudança de mentalidade.
“Acredito que um dos pontos-chave seja o fortalecimento de ensaios clínicos bem estruturados e representativos, especialmente em condições prevalentes no sistema público”, diz Priscila.
A pesquisadora também defende a capacitação de profissionais de saúde e o investimento em educação da população. “É preciso informar com base científica e sensibilidade. Só assim conseguimos quebrar barreiras e estigmas que ainda envolvem os derivados da cannabis”.
Ao final da entrevista, Priscila reforça que o CBD não é fórmula mágica, mas uma ferramenta potente, com efeitos promissores para além dos números e gráficos. Seu trabalho, ao lado de outros pesquisadores da USP, é um lembrete de que a ciência pode, e deve, ouvir a dor do outro em todas as suas formas. “Nós buscamos respostas que façam sentido para quem sofre. E quando encontramos algo que pode aliviar tanto a dor do corpo quanto a da alma, sabemos que estamos no caminho certo”, finaliza.
Leia Também:
Cannabis medicinal: Alternativa para tratamento de depressão e ansiedade
Cannabis auxilia paciente com depressão profunda
Canabidiol (CBD) como aliado promissor contra a depressão, ansiedade e insônia