Proibição federal do Delta-8 e outros derivados do cânhamo pode ocorrer em outubro
Medida aprovada por importante comitê do Congresso estadunidense pode retirar produtos do mercado em poucos meses

Uma nova medida aprovada por um comitê crucial do Congresso dos EUA pode resultar na proibição de compostos derivados do cânhamo, como o delta-8 THC, ainda este ano. O House Appropriations Committee votou a favor de uma proposta que visa controlar esses produtos, potencialmente antecipando sua retirada do mercado já em outubro.
A medida faz parte de um projeto de financiamento para 2025, abrangendo a agricultura, a Food and Drug Administration (FDA) e outras agências. Entre as disposições incluídas, está a regulamentação de substâncias psicoativas derivadas do cânhamo, como o delta-8 THC, delta-10 THC, THC-O-acetato, HHC e THCP, além do THCA, um precursor do delta-9 THC.
Semelhanças com o delta-9-THC e preocupações com a saúde
Os compostos psicoativos do cânhamo produzem efeitos semelhantes aos do delta-9 THC, encontrado na maconha. Esses produtos, frequentemente vendidos em forma de gomas e outras guloseimas, são criticados por suas embalagens atrativas para crianças. O deputado Andy Harris, de Maryland, autor da emenda ao projeto de lei, destacou a necessidade de combater essas substâncias devido aos riscos à saúde pública.
A emenda de Harris solicita que o FDA analise os riscos à saúde dos produtos derivados do cânhamo e estabeleça parâmetros regulatórios claros. Entre as propostas estão requisitos de rotulagem, padrões de teste, relatórios de eventos adversos, embalagens seguras e limites de idade para compra.
Se aprovado, o projeto de lei de gastos aceleraria a repressão a esses produtos, antes mesmo da finalização do próximo Farm Bill, previsto para o final do ano ou início do próximo. A nova legislação visa fechar a brecha de 2018, distinguindo entre extratos intoxicantes e cânhamo industrial.
O que dizem especialistas?
Renato Filev, neurocientista e coordenador científico na Plataforma Brasileira de Política de Drogas afirma que: “Existem pontos importantes que tangem essa discussão. O primeiro é a questão técnica sobre os efeitos desses isômeros, isto é, dessas variantes da família de compostos semelhantes ao delta-9-THC, como delta-8, delta-10, dentre outros. Creio que o FDA está preocupado com fatores como operar máquinas, dirigir automóveis, intoxicação não intencional de crianças e idosos, questões de interação medicamentosa, metabolismo e, sobretudo, pacientes que fazem uso de polifarmácia ou que já demonstram um impacto metabólico hepático sobrecarregado”, diz o pesquisador que analisa que, como o órgão sanitário norte-americano já restringe o delta-9-THC, o delta-8 também deve seguir o mesmo caminho.

Contudo, é importante lembrar que quando se trata do delta-8-THC, existe uma ação mais atenuada em comparação com o delta-9, pois a afinidade dele pelo receptor CB1, o qual desencadeia os efeitos característicos, é mais baixa, explica Filev:
“Por serem moléculas semissintéticas, os efeitos destes compostos chamados de intoxicantes pelo FDA, são previstos, esperados, não são algo que vá além daquilo que é encontrado, diferentemente do uso das substâncias naturais”, afirma, lembrando que obviamente está falando de um mundo ideal onde a substância é feita e purificada de maneira adequada, sem adição de subprodutos.
Em um segundo momento, afirma o especialista, há também questões para serem discutidas sobre cuidados de boas práticas de fabricação, que interferem também na decisão do órgão federal.
"Vemos que nos Estados Unidos, na prática, esse cuidado com a formulação e produção de produtos à base destes compostos não vem ocorrendo. Em uma rápida pesquisa na internet, é possível acompanhar notícias, por exemplo, de que há uma discrepância do teor de princípios ativos encontrados nos produtos em detrimento daquilo que apresentam em suas rotulagens, levando a uma maior repressão das autoridades competentes”.
Já para Daiane Zappe, gerente de negócios da Revivid Brasil, empresa especializada na fabricação e comercialização de produtos à base de cannabis vindos dos EUA, afirma que:
“A proibição do THC em muitos estados americanos é um reflexo de uma complexa teia de história, política e supostas preocupações com a saúde pública. Mas a verdade é que a exploração do comércio do delta-8-THC só surge pela ausência de regulamentação mais atual e abrangente sobre o uso terapêutico e uso adulto. Como há uma proibição do delta-9-THC e uma omissão legislativa sobre o delta-8, várias empresas começaram a comercializar o composto como uma possibilidade de não estar fora das regras. Em nível federal, o delta-8-THC foi considerado legal sob a Lei Agrícola de 2018 (Farm Bill), que legalizou a produção de cânhamo e seus derivados, desde que o produto contenha menos de 0,3% de THC e, consequentemente, seus subprodutos".
Em resumo, o que Zappe destaca é que, o que não é proibido, é permitido. “Essa é uma máxima do direito”, lembra a empresária.
Enquanto isso, estados dos EUA têm tomado medidas próprias para controlar o mercado desregulado de cânhamo. Produtores de maconha recreativa e medicinal argumentam que a falta de regulamentação dos derivados do cânhamo cria uma concorrência desleal.
A FDA tem alertado repetidamente sobre os perigos destes compostos, ressaltando que esses produtos podem conter químicos nocivos. No início deste ano, autoridades de 20 estados e do Distrito de Columbia enviaram uma carta ao Congresso pedindo a regulamentação desses produtos no próximo Farm Bill.
Em paralelo, o House Appropriations Committee também votou para bloquear a tentativa da administração Biden de reclassificar a cannabis sob a lei federal, impedindo o Departamento de Justiça de utilizar fundos para essa reclassificação.
A medida, se implementada, representará um marco na regulamentação de produtos derivados do cânhamo nos EUA, refletindo uma crescente preocupação com a saúde pública e a segurança dos consumidores.
