Por que a desinformação ainda é barreira para a cannabis medicinal no Brasil
Médico anestesista explica como fake news, falta de formação e barreiras regulatórias ainda impactam o acesso seguro à cannabis medicinal no Brasil
Publicada em 28/04/2026

Excesso de informações desencontradas e conteúdos não científicos ainda impactam o acesso seguro à cannabis medicinal no Brasil | CanvaPro
Nem sempre a dor que chega ao consultório é apenas física. Em muitos casos, ela vem acompanhada de dúvidas, medos e informações desencontradas que atravessam o caminho do tratamento antes mesmo de ele começar.
No caso da cannabis medicinal, esse cenário ainda é comum e revela um desafio silencioso: o peso da desinformação na decisão de pacientes e profissionais de saúde.
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É o que observa o médico anestesista Dr. Renato Muniz Giaccio, da Clínica MindClin, na capital paulista, ao relatar como mitos e lacunas no conhecimento seguem impactando o acesso à terapia no Brasil.

Como a desinformação impacta a adesão ao tratamento com cannabis?
“A desinformação impacta diretamente tanto a adesão quanto a continuidade do tratamento. Muitos pacientes chegam ao consultório com receio, preconceitos ou expectativas irreais, frequentemente influenciados por conteúdos não científicos disseminados em redes sociais e na mídia", explica.
O médico também chama atenção para um ciclo que se retroalimenta. “Além disso, existe um efeito indireto importante: a própria produção científica ainda sofre com entraves regulatórios e burocráticos históricos, o que limita a quantidade de estudos clínicos robustos, especialmente ensaios randomizados de grande escala. Isso cria um ciclo difícil, há menos evidência de alto nível, o que alimenta a insegurança de profissionais e pacientes, que por sua vez reduz a adoção terapêutica", pontua.
Na prática, segundo o médico que também trabalha com psicodélicos, esse cenário se traduz em abandono precoce, uso inadequado e resistência ao início do tratamento. “Portanto, a desinformação não só dificulta o acesso, mas compromete a eficácia do tratamento ao interferir na adesão e na condução adequada da terapia".
Quais são os mitos mais comuns sobre cannabis medicinal?
O médico explica: "existem alguns mitos bastante recorrentes, tanto entre leigos quanto entre profissionais da saúde.Entre eles, a associação automática da cannabis ao efeito psicoativo".
E exemplifica as dúvidas mais frequentes como:
“Cannabis sempre causa efeito psicoativo (‘ficar doidão’)"
Isso não é verdade. Os efeitos psicoativos estão principalmente relacionados ao THC (tetrahidrocanabinol), enquanto o CBD (canabidiol), por exemplo, não possui esse efeito e é amplamente utilizado em diversas condições clínicas.”
Outro ponto recorrente envolve impactos no cérebro.
“Cannabis destrói neurônios?"
Essa é uma simplificação equivocada. O impacto depende de dose, idade de exposição e contexto clínico. Em ambiente médico controlado, há evidências inclusive de propriedades neuroprotetoras, especialmente relacionadas ao CBD".
Também há percepções equivocadas sobre segurança.
“Há risco alto de overdose fatal"?
Diferente de opioides e outros fármacos, a cannabis não apresenta um perfil de toxicidade letal nas doses utilizadas clinicamente. O risco maior está em efeitos adversos transitórios, como ansiedade ou sedação, principalmente quando há uso inadequado ou sem acompanhamento.”
E ainda, a ideia de que não há base científica.
“Cannabis é uma terapia ‘alternativa’ e não baseada em evidência?"
Hoje já existem indicações bem estabelecidas, como epilepsias refratárias, dor crônica, espasticidade, ansiedade e distúrbios do sono, entre outras com crescente corpo de evidência científica".
De que forma a falta de informação qualificada limita o acesso?
Para ele, a cannabis medicinal não é uma intervenção única, mas sim um conjunto complexo de possibilidades terapêuticas. "Estamos falando de diferentes fitocanabinoides (como THC, CBD, CBG, entre outros), em variadas proporções, formulações e vias de administração", afirma.
Segundo o especialista, a falta de preparo técnico impacta diretamente o cuidado, com isso ele esclareceu:
“Atraso na indicação correta"
Muitos profissionais não consideram a cannabis como opção terapêutica, mesmo em casos onde ela poderia ser benéfica, como dor crônica refratária ou transtornos ansiosos, como adjuvante nos tratamentos convencionais".
“Prescrição inadequada"
O desconhecimento sobre proporções entre THC e CBD pode levar a tratamentos ineficazes. Por exemplo, em dor crônica, frequentemente é necessária a presença de THC em determinadas concentrações para obter analgesia adequada, algo que nem sempre é compreendido".
“Limitação de acesso"
Pacientes podem ser desencorajados por profissionais desatualizados ou mal informados, o que reduz suas opções terapêuticas".
“Experiências negativas (‘queimar o tratamento’)"
Quando há prescrição inadequada ou uso sem orientação, o paciente pode ter efeitos indesejados ou ausência de resposta, levando à conclusão equivocada de que ‘cannabis não funciona’".
O que precisa avançar para reduzir o estigma e ampliar o acesso?
Sobre avenços e quebra de estigmas do tema cannabis medicinal, o médico ressalta que o avanço, no Brasil, depende de mudanças estruturais que começam na base da formação em saúde e se estendem à forma como a informação é compartilhada com a população. “A inclusão do Sistema Endocanabinoide na formação médica é um fator que contará com a ampliação do acesso, pois é pouco ou nada abordado na maioria das universidades e isso precisa mudar de forma estruturada, pois ele é um dos principais sistemas moduladores do organismo humano, envolvido em dor, humor, sono, apetite e imunidade", explica.
Ele também destaca que “educação médica continuada baseada em evidência” é essencial para que profissionais tenham acesso a conteúdos confiáveis, evitando decisões baseadas em opinião ou preconceito.
No mesmo sentido, o especialista aponta a urgência de um ambiente mais transparente e científico na comunicação pública. “O combate ativo à desinformação (fake news), abrangendo uma comunicação pública mais clara, acessível e baseada em ciência. Hoje, há um excesso de conteúdo sensacionalista ou impreciso que confunde pacientes".
E, por fim, ele ressalta que a valorização de especialistas qualificados e uma regulação mais eficiente e incentivo à pesquisa, fazem parte dessa desmistificação e são capazes de fortalecer a credibilidade da área e ampliar o acesso a dados consistentes, alinhados à realidade brasileira. "É essencial diferenciar profissionais com formação sólida e experiência clínica daqueles que disseminam informações sem base científica. Isso impacta diretamente na credibilidade da área", finaliza.


