A cannabis que reside em cada um

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Mara Cristina Gabrilli é uma psicóloga, publicitária e política brasileira, filiada ao Partido da Social Democracia Brasileira. Foi vereadora de São Paulo, deputada federal e atualmente é Senadora da República pelo estado. (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Mara Gabrilli

Em 1994, quebrei meu pescoço e perdi os movimentos de braços e pernas. À época, no Brasil, reabilitação de deficiências era algo incipiente, praticamente não existia. Por um privilégio, infelizmente ainda para poucos nesse país até hoje, pude viajar para os EUA e me reabilitar. Lá, aprendi a cuidar do meu novo corpo e tudo o que ele precisava para, mesmo imóvel, ser saudável. Foi nessa época que descobri uma grande aliada da minha saúde e bem-estar de tetra: a cannabis medicinal.

Naquela década, fora do Brasil, muitas clínicas já prescreviam a cannabis para tratar pessoas com paralisias e doenças incapacitantes. Eu mesma fazia uso de medicamentos para atenuar dores, espasmos e outras questões decorrentes da minha tetraplegia. Foram décadas me tratando com médicos do exterior, que me receitavam o óleo de cannabis de acordo com as minhas necessidades. 

Aqui em nosso país, quando finalmente a Anvisa passou a permitir a importação do CBD, comecei a importar o óleo com a prescrição médica daqui. Contudo, diferente do medicamento que eu usava dos Estados Unidos, o óleo importado não produziu os mesmos efeitos em meu corpo. Desenvolvi um quadro que chamaram de epilepsia visceral. Eram crises fortíssimas de espasmos, que me deixavam prostrada numa cama, sem conseguir dormir direito, comer. Sem vontade de viver. Por outro lado, esse mesmo óleo que me fez mal, poderia ser extremamente benéfico para outras pessoas com diferentes condições. 

Não podemos limitar as propriedades da cannabis a um único cannabinóide. Não podemos aceitar que seja assim. As pessoas precisam acessar aquilo que necessitam. Não existe apenas uma única alternativa de tratamento. É direito dos pacientes equilibrar os processos cognitivos e fisiológicos de seu próprio corpo e alcançar a sinergia do efeito entourage, pela interação com todos os fitoquímicos da planta.

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A verdade é que desconhecemos todo o potencial terapêutico da cannabis, além dos cannabinóides e terpenóides, encontramos também outras substâncias essenciais aos humanos como alcalóides, flavonóides, fenóis, açúcares, entre outros. Talvez o THC seja o cannabinóide de maior importância farmacológica, maior até que o CBD. 

Não podemos ignorar todas as propriedades da cannabis, tampouco demonizar o THC. O que serve para um paciente não necessariamente servirá para outro. Mas pregar uma única possibilidade de tratamento, com um CBD caro e produzido lá fora, é andar para trás. É uma presunção do Estado impor o tratamento que o brasileiro pode buscar, ignorando que todos nós, seres humanos, temos um sistema endocanabinóide, que pode ser instigado de maneira saudável e diferente com outras propriedades da cannabis.

Memória e aprendizagem, regulação do apetite, percepção de dor, termorregulação do corpo são apenas alguns exemplos de funções fisiológicas nos quais o sistema endocanabinóide desempenha papel fundamental. Sem contar nosso sistema imunológico, que ganha um guardião de peso. 

Não por acaso, alguns produtos de cannabis estão sendo estudados como potenciais tratamentos para evitar a reação excessiva da “tempestade de citocinas” do sistema imunológico. Fenômeno que acontece em pacientes com Covid-19. Aliás, por falar em Covid, como vítima desse vírus assustador, lembro que não me tratei com cloroquina e outros remédios sem comprovação científica, mas com a cannabis medicinal. 

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Meu corpo passou por um tsunami de contrações musculares. Perdi força e peso, pois a falta de paladar e olfato também me levaram à perda de apetite. Também sofri com a perda de memória recente. E foi a cannabis que me permitiu atenuar espasmos, me alimentar, dormir e me recuperar da tristeza profunda que passamos quando lutamos contra a Covid. 

A senadora Mara Gabrilli (PSDB-SP), desde quando era deputada, é pautada pela proposição de políticas para as pessoas com deficiência. (Foto: Cristiano Mariz/VEJA)

O mais deprimente, no entanto, é saber que o Brasil ainda insiste em negar o avanço da ciência e os benefícios de diversos cannabinóides, bem como os de terpenos canábicos, que regulam o efeito da cannabis e apresentam propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, que podem tirar a dor de muita gente. 

O Mirceno, por exemplo, é o terpeno mais encontrado na cannabis. Em algumas variedades chega a compor cerca de 60% do seu óleo essencial. Mas ele também é encontrado na manga, lúpulo, manjericão, dentre outras plantas que estão na mesa de qualquer brasileiro, sem restrições. Por que demonizar tudo que vem da cannabis?

Hoje, tenho prescrição médica para usar o Sativex, medicamento com THC e Canabidiol, registrado no Brasil em 2017, com o nome de Mevatyl. Esse foi o primeiro medicamento à base de cannabis registrado pela Anvisa. 

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Diferente de um óleo, ele sai cerca de 3 mil reais por mês. Por isso é muita crueldade falar que o Brasil já regulamentou a cannabis. Ou que o único tratamento comprovado é o CBD. É muita hipocrisia. Temos THC nas farmácias. A diferença é que ele existe só para quem tem dinheiro.

Flertei com a morte e por privilégio recebi uma nova condição para a vida: a impossibilidade de me mexer do pescoço para baixo, mas com a possibilidade de manter a minha musculatura forte, minha mente saudável e a alma inquieta. Tudo isso, entretanto, só foi possível porque lá em 1994, fui apresentada às propriedades de uma planta que mudaria minha qualidade de vida. 

Quase três décadas se passaram e ainda discutimos se o plantio da cannabis é seguro, quando mais de 50 países pelo mundo já regulamentaram a oferta de produtos e medicamentos à base da planta. 

Até quando vamos andar opostos ao progresso?

Como dizia Aristóteles, “o começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são”. 

Possuímos potencial para garantir saúde a muitos pacientes. Não podemos trilhar o caminho inverso do primeiro mundo.

A atuação do governo nesta pandemia já expôs a conta: negar a ciência custou mais de meio milhão de vidas. Temos a chance de atenuar de alguma maneira essa dívida, cuidando hoje da dor de crianças, adultos e idosos, reconhecendo a cannabis como tratamento. Um tratamento que não custe milhões para milhares de brasileiros.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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