A pegada do cânhamo

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Para a colunista, nem se o Brasil cultivasse muito cânhamo poderia neutralizar os vergonhosos estragos causados ao meio ambiente (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Maria Ribeiro da Luz*

Quiçá num futuro próximo poderemos nos deparar com plantações de cânhamo espalhadas pelas zonas rurais do Brasil. Essa ideia parece meio utópica mas, com o tempo, a gente chega lá. Em todo caso, quando isso acontecer, nem adianta achar que fazer um baseado com alguma flor irá fazer a sua cabeça. Comumente denominado Hemp, é uma espécie sativa, que tem a particularidade de conter menos de 0.3% de THC, portanto não dá barato. Apesar de derivarem da mesma espécie, cânhamo e cannabis apresentam distinções consideráveis quanto a fenótipo, método de cultivo e aplicação. O Cânhamo foi utilizado como fibra há mais de 50.000 anos, e foi matéria prima para a primeira bíblia impressa e para as cordas e caravelas de Cabral.

Apesar de derivarem da mesma espécie, cânhamo e cannabis apresentam distinções consideráveis quanto a fenótipo, método de cultivo e aplicação. O Cânhamo foi utilizado como fibra há mais de 50.000 anos, e foi matéria prima para a primeira bíblia impressa e para as cordas e caravelas de Cabral.

A maior parte do mundo ocidental proibiu o cultivo de Cannabis no início do século XX por conta do THC, canabinoide estereotipado como vilão e alvo de preconceitos sociais e políticos, limitando assim o interrogatório efetivo dos potenciais benefícios da planta e solidificando a polarização da opinião pública.

No entanto, desde 1990, dezenas de países autorizaram o cultivo e o processamento do “cânhamo industrial”. Amplamente cultivado nos Estados Unidos em meados do século XIX, após 80 anos de proibição, finalmente em 2018 seu cultivo foi legalizado com um projeto de lei aprovado de lavada pelo Senado americano.

Mais de 30 países produzem cânhamo industrial, mas o principal deles é a China, responsável por 70% da produção mundial. A França ocupa o segundo lugar com cerca de um quarto da produção mundial, e a menor fatia vem da Europa, Chile, e Coreia do Norte.

Mais de 30 países produzem cânhamo industrial, mas o principal deles é a China, responsável por 70% da produção mundial. A França ocupa o segundo lugar com cerca de um quarto da produção mundial, e a menor fatia vem da Europa, Chile, e Coreia do Norte.

O cânhamo, dentre suas múltiplas facetas ecológicas, tem potencial para contribuir com uma agricultura regenerativa, e além de fornecer um habitat para a vida selvagem, ele é uma matéria-prima ecológica, aliado da sustentabilidade por promover diversos benefícios ambientais.

A planta tem crescimento rápido e é campeã em capturar dióxido de carbono da atmosfera. Por cada tonelada de caule de cânhamo, são removidas do ar 1,63 toneladas de carbono (o que faz do cânhamo um sugador de dióxido de carbono muito mais eficaz do que qualquer floresta). Pesquisas recentes indicam que a planta ainda purifica a poluição do ar. Com sua pegada de carbono negativa, é o aliado perfeito para diminuir os índices de dióxido de carbono na atmosfera.

Com ampla adaptação climática, suas longas raízes controlam a erosão, permitindo que ele prospere em condições de seca. A cultura do cânhamo demanda pouca quantidade de água e ainda purifica o solo, drenando resíduos de pesticidas, agrotóxicos e até metais pesados.

Além de sua cultura ter propriedades regenerativas para o meio ambiente, o polivalente hemp ainda é matéria prima para uma variedade de artigos comerciais, incluindo medicamentos, alimentos, papel, têxteis, corda, plásticos biodegradáveis, biocombustível e concreto.

O hempcrete é feito a partir da mistura do cânhamo com cal e água, é 85% mais leve que o concreto (portanto igualmente menos resistente), mas é um excelente isolante térmico e possui capacidade de absorver e liberar humidade sem se deteriorar. Além do hempcrete, estão sendo utilizados uma ampla gama de materiais a base de cânhamo na construção civil, como vernizes e painéis pré fabricados para revestimento.

O plástico de cânhamo é muito mais resistente que o PVC, ainda é atóxico e biodegradável. Seu biocombustível é 86% menos poluente que a gasolina. Um hectare de cânhamo produz tanto papel quanto 4 hectares de árvores, com a vantagem que o cânhamo cresce em quatro meses. As sementes são uma valiosa fonte de proteínas para o homem e para utilização na alimentação animal. Enquanto fibra têxtil, leva vantagem em comparação com o algodão por consumir metade de água e não necessitar de pesticidas, enquanto o algodão é responsável por 25% do consumo mundial.

O proibicionismo e o favoritismo em prol da indústria algodoeira nos privou do cultivo do cânhamo e nos reduziu uma vez mais a distantes espectadores do desenvolvimento de outros países. Distância essa que parece só aumentar quando o assunto é sustentabilidade. A proteção ambiental no Brasil está prestes a ser terceirizada a um público que não conhece o significado do substantivo “preservação”.

O proibicionismo e o favoritismo em prol da indústria algodoeira nos privou do cultivo do cânhamo e nos reduziu uma vez mais a distantes espectadores do desenvolvimento de outros países. Distância essa que parece só aumentar quando o assunto é sustentabilidade. A proteção ambiental no Brasil está prestes a ser terceirizada a um público que não conhece o significado do substantivo “preservação”.

O desgoverno brasileiro está no centro das atenções por descaso com o meio ambiente, e está prestes a aprovar uma flexibilização para a lei de licenciamento ambiental, que visa simplificar burocracias, criando até uma modalidade que dispensa processos de licenciamento. O projeto favorece o aumento do desmatamento, a criação de estradas, áreas para pecuária e diferentes obras em todos os biomas brasileiros, sem levar em conta as questões ambientais e sociais que essas mudanças podem causar.

Em Março de 2021 tivemos a maior taxa de desmatamento da Amazônia dos últimos 10 anos. As queimadas são a principal fonte de efeito estufa no Brasil. Ao longo de 2020, as queimadas do Pantanal foram destaque internacional, tal como na Amazônia em 2019. Sem falar na população indigena, que vive hoje um abandono sem precedentes.

Nem cultivando muito cânhamo poderíamos neutralizar os vergonhosos estragos causados no meio ambiente, mas levando em consideração apenas as utilizações citadas (sim, existem outras), podemos perceber a profusão de possibilidades, portanto de mercados a serem desenvolvidos em torno do cânhamo. Seu cultivo estimula toda uma nova indústria e reduz a dependência de bens importados, além de dar o impulso sustentável que o Brasil tanto precisa.

Nem cultivando muito cânhamo poderíamos neutralizar os vergonhosos estragos causados no meio ambiente, mas levando em consideração apenas as utilizações citadas (sim, existem outras), podemos perceber a profusão de possibilidades, portanto de mercados a serem desenvolvidos em torno do cânhamo. Seu cultivo estimula toda uma nova indústria e reduz a dependência de bens importados, além de dar o impulso sustentável que o Brasil tanto precisa.

O propósito ecológico em suas diversas aplicações, traz um sopro de esperança para um futuro mais progressista que respeite a ciência, os direitos humanos e principalmente, a natureza. Quanto à triste crise ambiental que o Brasil vem enfrentando, fica a reflexão de reavaliarmos nossas atitudes, escolhas de consumo, estilos de vida e a pegada de carbono que escolhemos deixar para trás.

*Maria Ribeiro da Luz é graduada em design de moda no Brasil e na França e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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