Está comprovado: terpenos e canabinoides interagem diretamente com mecanismo canabinoide

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Para o colunista, trata-se de ingenuidade pensar que todos os terpenos tenham um perfil farmacológico idêntico (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Fabrício Pamplona*

Quem me acompanha sabe que sou um entusiasta da ideia de sinergia entre compostos de planta, um conceito tão difundido no meio da fitoterapia, e particularmente debatido no âmbito da Cannabis medicinal. O conceito é tão atrativo quanto difícil de demonstrar, e para os mais rigorosos em farmacologia, o termo “sinergia” chega a dar arrepios, porque para prová-lo de verdade, praticamente você precisa demonstrar que consegue fazer a soma de 1+1 resultar em 3 (ou mais). 

Esse mês um artigo chamou bastante atenção da comunidade canabinoide por ter supostamente cravado uma conclusão definitiva e com evidência direta da interação entre terpenos e canabinoides. Contudo, o artigo não é livre de críticas; embora descreva um fenômeno real, há quem argumente que não se trata de um fenômeno clinicamente relevante.

Esse mês um artigo chamou bastante atenção da comunidade canabinoide por ter supostamente cravado uma conclusão definitiva e com evidência direta da interação entre terpenos e canabinoides. Contudo, o artigo não é livre de críticas; embora descreva um fenômeno real, há quem argumente que não se trata de um fenômeno clinicamente relevante.

E realmente o artigo não entre neste mérito da aplicação clínica. Primeiro, porque se trata de uma abordagem bem de laboratório, combinando experimentos in vitro (em células) e in vivo (em roedores), e mesmo combinando terpenos com canabinoides que não são originalmente encontrados na natureza.

A primeira descoberta interessante é que alguns terpenos são, por si só, canabimiméticos. O que isso quer dizer? Que eles ativam diretamente algum mecanismo associado ao sistema endocanabinoide. 

A primeira descoberta interessante é que alguns terpenos são, por si só, canabimiméticos. O que isso quer dizer? Que eles ativam diretamente algum mecanismo associado ao sistema endocanabinoide. 

Pelo menos quando falamos dos terpenos α-Humuleno, β-Pineno, Linalol e Geraniol fica evidente que:

  1. Estes terpenos geram um efeito analgésico relevante;
  2. O efeito é somatório aos efeitos do agonista canabinoide estudado;
  3. Há uma participação dos receptores canabinoides tipo CB1

O β-Cariofileno já se sabia que é um agonista canabinoide tipo CB2 com efeito anti-inflamatório, então não é novidade que ele também responda. Eu senti falta do mirceno, que é um importante terpeno presente na Cannabis e também já foi associado a efeitos analgésicos.

Honestamente, eu sou do tipo que torce o nariz quando vejo alguém se referindo aos “terpenos” assim em geral e atribuindo a eles um determinado efeito de interesse médico. Digo isso porque é bastante ingênuo pensar que todos eles possuem um perfil farmacológico idêntico. 

Honestamente, eu sou do tipo que torce o nariz quando vejo alguém se referindo aos “terpenos” assim em geral e atribuindo a eles um determinado efeito de interesse médico. Digo isso porque é bastante ingênuo pensar que todos eles possuem um perfil farmacológico idêntico. 

Aqui vemos claramente que este é o caso: os terpenos são obviamente diferentes entre si, com diferentes potencias e efeitos. Então, declarar qualquer coisa a respeito de “terpenos” generalizando, ou é falta de informação ou, digamos, entusiasmo exagerado pelo tema. 

Este não foi o primeiro estudo a investigar este tema, mas foi o primeiro a descrever a interação direta entre terpenos e canabinoides, e particularmente, associá-lo a um mecanismo particular.

Diria que estamos caminhando para uma compreensão melhor do fenômeno, e que pode ser mesmo no nível dos receptores canabinoides, ao contrário do que muitos pensavam. A questão ainda permanece aberta, minha conclusão é que o fenômeno em si foi descrito inequivocamente, é real, mas a relevância pros efeitos da Cannabis em si da forma como é consumida por pacientes ou usuários ainda precisa ser melhor estabelecida.

Vamos seguir acompanhando esta fronteira da ciência, ainda tem muita coisa interessante por vir.

Essa é a referência que reacendeu a discussão em torno do tema. Você pode ler o artigo na íntegra em https://www.nature.com/articles/s41598-021-87740-8. Pra quem não sabe o que é o efeito Entourage, recomendo artigo que publiquei tempos atrás aqui mesmo no Medium.

*Fabrício Pamplona é doutor em Psicofarmacologia, cofundador da Proprium Health, Technology and Science e do Instituto Phaneros e colunista do Sechat

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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