Ciência contra o "Achismo": o papel dos estudos clínicos no futuro da Cannabis Medicinal no Brasil

Em entrevista exclusiva, as neurocientistas Helena Joaquim e Alana Costa discutem como o rigor científico e as novas normas da Anvisa estão transformando o extrato de planta em medicina de prateleira

Publicada em 08/04/2026

Helena Joaquim e Alana Costa falam sobre estudos clínicos com cannabis medicinal no Brasil

As cientistas Helena Joaquim e Alana Costa, da Green Care, destacam o papel dos estudos clínicos na consolidação da cannabis como medicamento no Brasil. Foto: Sechat

O mercado de cannabis medicinal no Brasil vive um momento de amadurecimento técnico sem precedentes. No centro dessa transformação estão as cientistas Helena Joaquim e Alana Costa, que atuam na Green Care e detalharam, em entrevista ao Deusa Cast, os bastidores da construção de evidências sólidas para a terapia canabinoide no país.

Do "Produto" ao Medicamento

 

Atualmente, os produtos de cannabis nas farmácias brasileiras são comercializados sob uma autorização sanitária transitória. Helena Joaquim, que é bacharel em Biotecnologia, doutora em Neurociências e possui pós-doutorado com foco no sistema endocanabinoide, ressalta que o grande desafio é a transição para o registro como medicamento fitoterápico (seguindo a RDC 1004). Para isso, são necessários estudos pré-clínicos e clínicos de fases 1, 2 e 3.

"O estudo clínico é o que traz segurança e eficácia. Ele define quem é o paciente que realmente se beneficia e qual a dose segura", explica a especialista. A empresa onde atua está em finalização do Fase 1 (segurança em humanos) e em elaboração do Fase 2, focada na eficácia dos extratos.

O Fim do Preconceito via Dados

 

Para as pesquisadoras, a ciência é a única ferramenta capaz de combater o estigma que ainda envolve a planta. Alana Costa, biomédica, mestre e doutora em Neurociências, destaca que o sistema endocanabinoide atua como um "maestro" do organismo, buscando o equilíbrio (homeostase).

Quando esse sistema falha em condições crônicas como epilepsia, dor ou ansiedade, os fitocanabinoides entram como uma "chave exógena" para restaurar a função cerebral.

"A ciência não se importa com a opinião das pessoas. Ela precisa ser posta à prova com metodologias e regras claras", afirma a coordenadora científica.

Elas defendem que o rigor da Anvisa, embora muitas vezes criticado pela lentidão, é essencial para garantir que o médico tenha segurança ao prescrever e que o paciente receba um produto livre de contaminantes e com reprodutibilidade de lote.

Educação e Prescrição

 

Um dos maiores gargalos identificados é a educação médica. Como o sistema endocanabinoide só foi descoberto nos anos 90, ele ainda é ausente na maioria das grades curriculares. Isso leva a prescrições inadequadas que, se não funcionam, acabam prejudicando a percepção sobre a terapia.

As cientistas reforçam que a cannabis não é uma "panaceia" para todos os males, mas possui eficácia robusta e comprovada para condições específicas, como epilepsias refratárias e espasticidade na esclerose múltipla, com evidências crescentes para dor crônica e sintomas ansiosos.

Um Caminho Sem Volta

 

Com investimentos que podem ultrapassar os R$ 25 milhões por estudo, o Brasil se posiciona não apenas como um consumidor, mas como um polo de pesquisa clínica de alta qualidade. Para Helena e Alana, o futuro reserva uma indústria profissionalizada, onde a cannabis será tratada com a mesma seriedade de qualquer outra classe farmacêutica, garantindo qualidade de vida e vidas transformadas para milhares de brasileiros.


Veja e entrevista: 

 

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