Nova geopolítica da cannabis: por que o Brasil pode ganhar espaço com mudança nos EUA

Mudança histórica nos Estados Unidos reposiciona a cannabis medicinal e abre uma janela estratégica para o Brasil avançar em regulação, pesquisa e mercado global.

Publicada em 29/04/2026

Reclassificação da maconha nos Estados Unidos pode impactar tributação e mercado da cannabis

Robson Ribeiro, CEO da Lidera Health e fundador da LeafHub, analisa os impactos da reclassificação da cannabis nos EUA e aponta oportunidades estratégicas para o Brasil no cenário global.

A reclassificação da cannabis medicinal nos Estados Unidos não é apenas uma mudança regulatória — é um movimento que reorganiza o tabuleiro global da indústria, da ciência e dos investimentos. E, nesse novo desenho, o Brasil pode ocupar um espaço mais relevante do que muitos imaginam.

A leitura é de Robson Ribeiro, que enxerga na decisão americana um ponto de inflexão capaz de reposicionar países inteiros dentro da cadeia global da cannabis.

“A reclassificação é a maior remoção de fricção em pesquisa e operação clínica de cannabis em 50 anos”, afirmou. Segundo ele, embora a medida represente um avanço significativo, ela ainda mantém limites importantes: “não é desregulamentação total, é uma porta aberta para o uso medicinal e clínico”, analisou.

Mudança nos EUA não resolve tudo — e abre espaço

 

WhatsApp Image 2026-04-09 at 11.31.01 (1).jpeg
Robson Ribeiro avalia como a mudança regulatória nos Estados Unidos pode reposicionar o Brasil no mercado global de cannabis medicinal

 

Na prática, a mudança nos Estados Unidos não resolve todos os gargalos — e é justamente nesse espaço que outras nações podem avançar.

“O decreto cobre produtos farmacêuticos aprovados e cannabis sob licença estadual. A cannabis recreativa continua na Schedule I”, explicou Ribeiro. Essa limitação mantém restrições relevantes para pesquisa mais ampla e desenvolvimento de novas formulações.

É nesse ponto que o Brasil ganha relevância.

“Em arquitetura regulatória, o Brasil está à frente”, disse. “Temos um regulador federal único, com via de prescrição definida e uma estrutura que os EUA nunca tiveram”, afirmou.

Enquanto o modelo americano segue fragmentado entre estados, o Brasil consolidou um sistema centralizado que organiza o acesso medicinal — um fator que, segundo ele, reduz incertezas e facilita a construção de um mercado mais estruturado.

Regulação brasileira: vantagem com travas

 

O arcabouço regulatório brasileiro, no entanto, não é isento de contradições.

“O limite de 0,3% de THC restringe o cultivo nacional e mantém a dependência de importação para produtos mais concentrados”, explicou.

Além disso, há entraves que vão além da norma. “Financiamento bancário, tributação indefinida, educação médica e fragmentação das vias de acesso ainda travam o desenvolvimento do setor”, afirmou.

Ainda assim, o país apresenta diferenciais únicos. “A tradição de manipulação magistral cria uma infraestrutura de dispensação que praticamente não existe na cannabis americana”, destacou.

O dado vira o ativo mais valioso

 

Se há um ativo que deve definir os próximos anos da indústria global, ele não está apenas na produção — mas nos dados.

“A geração de Real-World Evidence em escala é um dos ativos mais valiosos para o futuro do setor”, afirmou Ribeiro.

Nesse aspecto, o Brasil pode se tornar protagonista.

“O país combina custo de pesquisa clínica mais baixo, diversidade populacional e capacidade de recrutamento em larga escala”, disse. “Essa estrutura permite produzir evidência clínica com uma eficiência que poucos mercados conseguem”, analisou.

Mesmo com a reclassificação americana, ainda existem barreiras relevantes para estudos mais amplos nos EUA. “Pesquisa com planta inteira e formulações inovadoras continua com fricção significativa”, explicou.

Prescrição da flor: o que funciona — e o que não

 

A discussão sobre a prescrição da flor também entra nesse contexto mais amplo de evidência e controle.

“O padrão internacional é claro: regulação rigorosa combinada com dados clínicos funciona”, afirmou.

Segundo ele, países que adotaram modelos estruturados conseguiram equilibrar acesso e segurança. “Onde houve monitoramento sério, deu certo”, disse.

Por outro lado, experiências menos controladas servem de alerta. “Prescrição liberal sem monitoramento vira problema, como vimos nos Estados Unidos”, analisou.

Parcerias globais entram em nova fase

 

Com a redução das barreiras regulatórias nos EUA, a tendência é de aumento nas parcerias internacionais.

“O movimento mais provável não é migração unilateral, é colaboração”, afirmou Ribeiro.

Nesse cenário, o Brasil se posiciona como parceiro estratégico. “O pesquisador americano ganha com escala e diversidade; o brasileiro ganha com capital, tecnologia e publicações de alto impacto”, explicou.

A reclassificação também destrava relações institucionais. “Viabiliza ensaios clínicos multinacionais, intercâmbio de pesquisadores e desenvolvimento conjunto de formulações”, disse.

Janela de oportunidade é curta

 

O momento atual resulta da convergência de três fatores: a mudança regulatória nos EUA, o avanço do cultivo medicinal no Brasil e a expansão do mercado europeu.

“Essa convergência cria uma janela real de oportunidade”, afirmou.

Mas o tempo é limitado. “Estamos falando de 12 a 24 meses antes que o capital global se reposicione de forma mais agressiva”, alertou.

Segundo ele, outros países já estão se movimentando rapidamente. “México, Colômbia e Israel não vão esperar”, disse.

Decisão estratégica para o Brasil

 

No fim, o debate ultrapassa a regulação e entra no campo da estratégia nacional.

“O Brasil decide agora se quer ser fornecedor estratégico ou continuar como consumidor importador”, concluiu Ribeiro.