Veterinária explica como a cannabis atua na dor e no comportamento de cavalos
Médica veterinária Katia Ferraro compartilha sua experiência clínica com cannabis na reabilitação de cavalos e destaca desafios técnicos e culturais
Publicada em 24/03/2026

Experiência clínica mostra benefícios da cannabis no tratamento de cavalos.
Em meio ao silêncio das baias e ao tempo lento da recuperação, a reabilitação de cavalos tem encontrado na cannabis medicinal uma aliada que vai além do controle da dor: ela reorganiza o comportamento, reduz o estresse e contribui para uma recuperação mais estável ao longo de todo o processo terapêutico.
A experiência clínica acumulada ao longo dos anos na fisioterapia equina tem revelado novos caminhos para a reabilitação de cavalos. Entre eles, o uso da cannabis medicinal vem ganhando espaço como ferramenta complementar no controle da dor, na modulação do comportamento e na melhora da qualidade de vida dos animais durante o tratamento.
À frente desse trabalho, a médica veterinária Katia Ferraro, presidente da Comissão de Cannabis do CRMV-SP, acompanha de perto os efeitos da terapia na rotina dos cavalos em reabilitação. Com atuação que integra prática clínica e observação dos aspectos regulatórios desde 2018, ela destaca que os resultados estão diretamente ligados ao conhecimento técnico e à individualização dos protocolos. “A gente não tem mais receita de bolo, protocolo feito, cada caso é um caso”, explica a médica.
Qualidade da recuperação e controle comportamental

Na prática, os efeitos da cannabis são observados de forma contínua ao longo do tratamento. Segundo a especialista, o uso do óleo permite maior estabilidade dos animais, especialmente durante períodos de confinamento, comuns na reabilitação.
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Ela explica que os canabinoides atuam com propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, além de contribuírem para o controle comportamental. “Quando a gente faz um programa de cannabis para o uso do óleo, durante o tratamento e a reabilitação desse animal, que às vezes leva três meses, pode levar muito mais até, a gente mantém esse animal mais tranquilo 24 horas, então ele fica mais tranquilo durante a baia, ele não vai escorcear a parede, não vai ficar tentando cavar por estar muito confinado, então ele vai ficar um animal mais tranquilo 24 horas do dia, fazendo com que ele tenha uma melhor qualidade de vida, com menor risco”, diz, ao descrever a diferença em relação a abordagens pontuais com medicações injetáveis.
Esse equilíbrio, de acordo com a veterinária, reduz o risco de recidivas e favorece a evolução clínica, já que o animal permanece mais estável durante todo o processo.
Experiência clínica e desafios no avanço da terapia
A entrada da cannabis em sua prática foi impulsionada pela própria vivência com dor crônica, o que levou ao aprofundamento nos estudos sobre o sistema endocanabinoide e sua aplicação terapêutica. “Eu comecei a tomar o óleo, porque foi assim que eu comecei a estudar para fazer um controle de dor crônica, e entendi que, a partir do momento em que estava com a minha dor crônica controlada, por que não levar isso para os animais com os quais eu trabalho? Quando eu entendi o quão potente é o controle de dor que a gente consegue com a cannabis. Mas eu comecei isso extremamente timidamente, realmente por conta do preconceito. Eu tinha um pouco de receio. Hoje eu trabalho muito, não só para controle. Quando eu entendi o quão potente é o controle de dor que a gente consegue com a cannabis”, relata.
Apesar dos avanços observados na rotina clínica, o uso da cannabis ainda enfrenta resistência. “O primeiro grande desafio que a gente tem ainda é o preconceito”, pontua. Segundo ela, ampliar o acesso à informação e incentivar a formação técnica são passos fundamentais para consolidar a terapia na medicina veterinária.


