A corrente do bem é feita de cânhamo!

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Dr. Pedro Pierro Neto (CRM 102.283/SP), neurocirurgião funcional, com especialidade em dor, transtornos de movimentos, epilepsia e doenças psiquiátricas tratadas cirurgicamente, pioneiro na prescrição de medicamentos a base de cannabis (Foto: Arquivo)

Por Dr. Pedro A. Pierro Neto em coluna publicada no Estadão

Recentemente tivemos a aprovação, na Câmara dos Deputados, do PL 399/2015, mais conhecido com a lei da Cannabis medicinal. O projeto regulamenta o comércio e o cultivo de cânhamo, que é uma espécie de Cannabis com menos de 1% de THC (componente psicoativo ativo da planta), por pessoas jurídicas para fins agrícola, de pesquisa e medicinal.

O uso medicinal da Cannabis já tem uma aprovação de 87% dos brasileiros, segundo dados do Instituto de Pesquisa do Senado, realizado antes da votação de terça-feira (10). Se aprovada no Senado, além de dar mais acesso a milhões de brasileiros a essa poderosa ferramenta terapêutica, também irá fortalecer e viabilizar nossas pesquisas científicas – sem contar que teremos mais um item valioso em nossa produção agrícola, que abrirá portas para novas vagas de emprego.

Chegar até aqui não foi fácil, mesmo com todos esses argumentos e de a maioria dos países da América do Sul já estarem plantando e lucrando com o cânhamo. Atualmente atravessamos uma verdadeira guerra de notícias falsas, agressões morais e físicas, que ultrapassam a estupidez e somente com a união de diversos setores da sociedade, liderado por pacientes e cuidadores de todo país, a ciência finalmente poderá vencer essa batalha.

Vivemos uma contradição moral. O Governo proíbe a forma mais barata desse produto e autoriza a venda do produto, por mais de R$ 2 mil nas farmácias. Imagine o desespero de um pai e uma mãe, que assiste histórias de sucesso no tratamento de muitas doenças na TV, mas mesmo que seja o caso do próprio filho, não possuem acesso ao médico e muito menos ao produto devido. Um produto que está perto dos olhos, mas muito longe do bolso.

A Agência de Vigilância Sanitária vem fazendo a parte dela dentro das suas competências. O orgão regula e facilita o acesso aos pacientes do produto importado, que apesar de ser, na maioria das vezes, mais barato do que os encontrados na farmácia, ainda está muito longe do bolso da maioria dos brasileiros. Custa por volta de R$ 500.

Por total falta de empatia desse governo e dos governos anteriores– que não garantiram o acesso a essa terapia –, a sociedade encontrou outros caminhos. Refiro-me às mais de 30 associações de pacientes da Cannabis medicinal, que garantem hoje o tratamento de 30.000 pessoas. Mas infelizmente, isso também está muito longe de ser o ideal.

Enquanto aqui no Brasil discutíamos os riscos de cultivar uma planta, que já é cultivada pelo homem há 12.000 anos, o mundo mostra o quanto estamos atrasados nesse debate. O canabidiol (substância da Cannabis, sem efeito psicoativo) foi liberado nas Olimpíadas de Tóquio, sem restrição de dose.

Não parece muito, mas ampliar a indicação de um produto, usado até agora apenas em pessoas doentes, aos atletas, é uma mudança de paradigma e de mercado. Isso me lembra a história da Coca-Cola, que deixou a farmácia e ganhou as sorveterias.

Eu entendo que parece estranho quando ouvimos todas as indicações e benefícios dos canabinoides, temos a impressão de que se funciona para tudo, na verdade não funciona para nada. Os canabinoides são excelentes sintomáticos, com baixos efeitos colaterais e, podem ser usados por pessoas doentes e saudáveis, mas realmente não funcionam para todas as doenças. Apesar de não funcionar para tudo, não quer dizer não sirva para todos; se você não entendeu, dê uma lida sobre o sistema endocanabinoide e se surpreenda.

Uma das coisas mais frustrantes que existe na medicina é você saber que um paciente pode ser beneficiado por um tratamento, porém a família não consegue ter o acesso. Durante a consulta de um paciente de nove anos com Transtorno de Espectro Autista – TEA e Síndrome de Down, fiz um pacto com a mãe dele: eu iria procurar uma empresa que patrocinasse o tratamento por um período, dessa e de outras crianças.

Eu já havia conseguido tratar pacientes no meu consultório, através de parcerias com empresas. Uma dessas empresas, por um acaso, estava fazendo o lançamento de um produto à base de Cannabis voltado para o público infantil, o Canabidiol 4 Kids, sem THC e com preços mais acessíveis.

Do outro lado dessa história, Patrícia (mãe da Isadora e minha paciente) conseguia o apoio para essa ideia de um jovem vereador de São Caetano do Sul – Caio Salgado, que levou esse projeto para APAE, considerada uma das melhores instituições do país. Após a aprovação e seleção dos casos pelo corpo clínico da instituição, os atendimentos foram iniciados e em breve, 12 crianças –inclusive meu paciente, de 9 anos, com autismo –começam o tratamento com o Canabidiol 4 Kids, da Carmen’s por nove meses.

Essa ação me fez lembrar a paródia da estrela do mar. Quando na beira da praia uma criança vê um monte de estrelas na areia e na vontade de ajudar começa a devolver, uma a uma, para a água, chega uma pessoa e pergunta: mas você não vai conseguir salvar todas as estrelas. A criança responde: mais para aquelas que eu salvar, vou fazer a diferença.

Parece pouco, um médico, um punhado de pacientes, mas não é, e para aqueles que conseguirmos ajudar, tenho certeza, que fará uma grande diferença. Se você é um médico que prescreva essa ferramenta terapêutica ou se você que tem interesse em patrocinar o acesso para essas pessoas, venha fazer parte dessa corrente do bem, não espere alguém próximo precisar. E não esqueça, ela não é para tudo, é para todos!

*Pedro A. Pierro Neto, médico. Neurocirurgião funcional e formador de médicos prescritores de Cannabis

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