Angels to some, demons to others

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Ricardo Ferreira, que é médico especialista no tratamento de doenças da coluna vertebral e controle da dor, defende que a Cannabis Medicinal não deve ser estigmatizada (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Coluna de Ricardo Ferreira*

Acredito que todos os alunos de carreiras relacionadas à saúde devam ouvir várias vezes ao longo da sua formação a frase: “A diferença entre o remédio e veneno está na dose.”

Esta frase é atribuída a Paracelso, médico e alquimista renascentista europeu que tinha como uma de suas metas produzir ouro em seu laboratório e encontrar o elixir da longa vida. Mas por ironia do destino, Paracelso morreu bem cedo; aos 47 anos e de causa ainda desconhecida.  

Embora esta frase seja coerente com o conceito proposto por Paracelso, na verdade a sua frase original foi: “Todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio.”

Todas as substâncias são venenos, não existe nada que não seja veneno. Somente a dose correta diferencia o veneno do remédio

Apesar desta frase ser óbvia e absolutamente compatível com o que acontece; hoje em dia sabemos que ela não pode ser levada ao pé da letra. 

Tá certo, todas as substâncias têm potencial de fazer mal para um ser humano. É comum ouvirmos que devemos consumir ao redor de 2 litros de água por dia, entretanto, volumes 3 ou 4 vezes maiores da mesma água podem te matar.

Apesar disso ser um fato, esta frase não explica porque as pessoas percebem efeitos diferentes com a mesma quantidade de uma substância. 

Em parte podemos relacionar com o gênero, idade e peso corporal. Mas na prática isso não explica muita coisa. Conheço alguns rapazes que poderiam estar lutando no UFC e que vão a knockout com 5 gotinhas de clonazepam, enquanto já ouvi incontáveis relatos que senhorinhas bem magrinhas que pararam de contar sua dose para dormir desse mesmo medicamento em gotas e passaram a contar em jatinhos… dois jatinhos, três jatinhos… E lá se vai um frasco de 20ml por semana.

Conheço alguns rapazes que poderiam estar lutando no UFC e que vão a knockout com 5 gotinhas de clonazepam, enquanto já ouvi incontáveis relatos que senhorinhas bem magrinhas que pararam de contar sua dose para dormir desse mesmo medicamento em gotas e passaram a contar em jatinhos… dois jatinhos, três jatinhos… E lá se vai um frasco de 20ml por semana

Tudo bem que elas não começaram assim, a maior parte dos medicamentos atuantes no sistema nervoso central, como o próprio clonazepam, são conhecidos por gerarem resistência com o passar do tempo. Este fenômeno é chamado de taquifilaxia, e ele explica porque com o uso prolongado algumas pessoas acabam precisando de doses muito maiores de uma determinada droga para conseguir o mesmo efeito; porém, não responde porque algumas pessoas podem ter efeitos colaterais, e às vezes até antagônicos utilizando doses baixas ou dentro da recomendação para o seu peso.

Nos últimos anos passamos a dar valor cada vez maior ao perfil genético de cada indivíduo como fator fundamental nos efeitos positivos e negativos da ingestão de uma substância. Em farmacologia isso é chamado de farmacogenética. A qual é área de conhecimento que relaciona a capacidade de absorção, metabolização e ação esperada de determinado medicamento com as possíveis variações genéticas individuais.

Nos últimos anos passamos a dar valor cada vez maior ao perfil genético de cada indivíduo como fator fundamental nos efeitos positivos e negativos da ingestão de uma substância. Em farmacologia isso é chamado de farmacogenética

Já faz algum tempo que temos no mercado mundial e brasileiro laboratórios que oferecem pacotes de mapeamento de alguns genes e a confecção de relatório capaz de guiar de forma mais assertiva quais medicamentos e doses devem ser os mais efetivos para quem fez o teste. Ao mesmo tempo estes relatórios alertam para os medicamentos que não devem ser tentados pelo risco de efeitos colaterais e danos secundários.

Estes laboratórios costumam oferecer pacotes para testes de medicamentos para doenças psiquiátricas como depressão, mas também existem pacotes para avaliar sua resposta a vários analgésicos, quimioterápicos, e até medicamentos para tratar problemas clínicos como hipertensão arterial e diabetes.

Recentemente passamos a ter acesso a pacote de teste farmacogenético teste para canabinoides. Assim como qualquer outra substância de ação no sistema nervoso central, os princípios ativos da cannabis podem agir de maneira muito distinta de pessoa para pessoa. E estes testes podem ser de grande valia para orientar os médicos na escolha de na dosagem, frequência de uso, e proporção entre canabinoides (THC:CBD) capaz de promover maior alívio dos sintomas com o mínimo de efeitos negativos.

Recentemente passamos a ter acesso a pacote de teste farmacogenético teste para canabinoides. Assim como qualquer outra substância de ação no sistema nervoso central, os princípios ativos da cannabis podem agir de maneira muito distinta de pessoa para pessoa

A realização destes testes não é algo obrigatório, o fator custo afasta a maioria das pessoas desta tecnologia, mas não temos dúvida que com o passar do tempo estes testes ficarão mais baratos e farão parte da rotina da tomada de decisão terapêutica para muitas doenças.

Até a popularização destes testes continuamos a busca do melhor para os nossos pacientes através do método tentativa e erro. Ou seja, investigamos o que já foi previamente testado, e de acordo com a resposta mantemos, ajustamos a dose, adicionamos ou mudamos a relação de medicamentos. E acompanhando  a evolução dos nossos pacientes, ponderamos entre os efeitos positivos e negativos de cada medicamento, para cada situação em cada paciente.

Quando tratamos uma doença ou sintoma com um só princípio ativo, por exemplo: quando um médico prescreve losartana para tratar hipertensão arterial, teoricamente é mais fácil acertar de primeira; entretanto, muitas vezes são necessárias modificações de dose e até mudar de medicamento por conta de ausência de melhora ou surgimento de efeitos negativos.

Agora, quando falamos da cannabis, uma planta composta por centenas de princípios ativos, com diferentes quantidade e proporções de canabinoides, terpenos e flavonoides  que variam de acordo com as variedades da planta, processo de cultivo, método de extração e até a forma de utilização; as variáveis se tornam virtualmente infinitas. E isso dificulta ainda mais a vida do médico e do paciente em encontrar como obter alívio com o mínimo de efeitos indesejáveis.

Quando falamos da cannabis, uma planta composta por centenas de princípios ativos, com diferentes quantidade e proporções de canabinoides, terpenos e flavonoides  que variam de acordo com as variedades da planta, processo de cultivo, método de extração e até a forma de utilização; as variáveis se tornam virtualmente infinitas

Apesar de todas estas dificuldades, é fato que muitos pacientes conseguem obter importante melhora de qualidade de vida com a utilização da cannabis para controle de diversos sintomas de um número bem variado de doenças. Mas para isso ser possível é indispensável o acesso a diferentes produtos, à base de diferentes variedades da planta, e com possibilidade de utilização por via oral, tópica e inalatória.  

Não é à toa que países que permitem o uso medicinal da cannabis entenderam isso há décadas. Quando um paciente canadense, americano, israelense, ou holandês recebe a prescrição de cannabis, ele passa a ter acesso a uma vasta opção de produtos de diferentes formas (flores, concentrados, pomadas e extratos), de diferentes variedades para serem utilizadas de diferentes maneiras.

Não é à toa que países que permitem o uso medicinal da cannabis entenderam isso há décadas. Quando um paciente canadense, americano, israelense, ou holandês recebe a prescrição de cannabis, ele passa a ter acesso a uma vasta opção de produtos de diferentes formas (flores, concentrados, pomadas e extratos), de diferentes variedades para serem utilizadas de diferentes maneiras

E esta ampla variedade de acesso se mantém há décadas porque desde o início eles perceberam que além daquela frase clássica que diz que “a diferença entre o remédio e o veneno está na dose” sozinha não basta.

Na prática percebemos rapidamente seja como médicos ou como pacientes que a frase: “Anjos para alguns, demônios para outros” é absolutamente real e é complementar ao conceito de Paracelso. E dada a sua importância,  da mesma forma ela deveria estar na cabeça de todos os médicos e ser repetida várias vezes ao longo da formação das carreiras relacionadas à saúde.

Respeite a individualidade em todos os sentidos.  

*Ricardo Ferreira é médico especialista no tratamento de doenças da coluna vertebral e controle da dor e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

O Sechat convidou os maiores especialistas brasileiros em Saúde e Negócios de Cannabis para serem seus colunistas. Saiba quem são e confira os textos:

Alex Lucena 

Inovação e empreendedorismo na indústria da Cannabis (19/11/2020)

Inovar é preciso, mesmo no novo setor da Cannabis (17/12/20) 

Marcelo de Vita Grecco

Cânhamo é revolução verde para o campo e indústria (29/10/2020)

Cânhamo pode proporcionar momento histórico para o agronegócio brasileiro (26/11/2020)

Brasil precisa pensar como um país de ação, mas agir como um país que pensa (10/12/2020)

Por que o mercado da cannabis faz brilhar os olhos dos investidores? (24/12/2020)

Ricardo Ferreira

Da frustração à motivação (03/12/2020)

Paulo Jordão

O papel dos aparelhos portáteis de mensuração de canabinoides (08/12/2020)

Wilson Lessa

O sistema endocanabinoide e os transtornos de ansiedade (15/12/2020)

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