Cannabis, essa officinalis

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A colunista afirma que o termo "officinalis" ou "oficinale" é frequentemente visto compondo o nome científico de plantas reconhecidas pelo seu uso terapêutico ou farmacêutico, como em relação à cannabis (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Coluna de Jackeline Barbosa*

Para você, que está chegando agora nessa minha nova coluna, muito prazer, boas-vindas e puxa uma cadeira que eu tenho uma prosa para propor: “esqueça” tudo que você já ouviu falar sobre Cannabis, tire todo histórico político e social que você escutou sobre ela. Assim, com a cabeça meio esquecida das prévias impressões, te convido a conhecer uma planta nova, a qual chamarei didaticamente de “Cannabis officinalis”.

Com toda a reverência que minha ousadia exige, aviso aos botânicos: perdoem-me se não sei o que falo. Minha ideia não é contestar a nomenclatura dada por Carolus Linnaeus, mas, sim, convidar a um exercício de imaginação, uma reflexão sem preconceitos, desconstruindo a marginalização que contextualiza esta planta, cujo desenho social e político, por muitos anos, se sobressaiu ao seu poder terapêutico.

Dito isto, vamos em frente?

Eram essas plantas que os mais remotos prescritores reconheciam e aplicavam a serviço da vida. São exemplos de plantas com esta nomenclatura: Borago officinalis (borragem), Calendula officinalis (calêndula), Zingiber officinale (gengibre), entre muitas outras.

O termo “officinalis” ou “oficinale” é frequentemente visto compondo o nome científico de plantas reconhecidas pelo seu uso terapêutico ou farmacêutico, no âmbito da farmacologia que prepara e estuda medicamentos. Em latim, “officinalis” significa o que pertence a uma oficina, ou seja, a planta com uso terapêutico – farmácia, botica – ou culinário – cozinha. Já a palavra oficina remete às práticas originadas à época dos alquimistas, quando as plantas eram transformadas em preparações farmacêuticas, como pomadas, xaropes, garrafadas, bálsamos etc, e utilizadas para fins de tratamento e cura. Eram essas plantas que os mais remotos prescritores reconheciam e aplicavam a serviço da vida. São exemplos de plantas com esta nomenclatura: Borago officinalis (borragem), Calendula officinalis (calêndula), Zingiber officinale (gengibre), entre muitas outras.

Falando de forma mais ampla, o termo officinalis reconhece plantas que já têm um uso tradicionalmente conhecido, estabelecido. Saltemos no tempo, e o que ora é proibido, passando a ser novo de novo, logo pouco conhecido, não poderia compor esse grupo. Quando a Cannabis sativa recebeu sua nomenclatura botânica, de fato seu uso e potencial medicinal, embora fossem milenares, já preocupava e passava a ser muito questionado. Tanto poder em uma só planta? Talvez fosse coisa de bruxas… ou de marginais. Mas essas são outras histórias.

Frequentou nobres salões, serviu a muitos curadores e fez até parte, vejam os senhores, da Farmacopeia Brasileira, parece que até 1929. Só que, outra vez, surgiu uma série de contratempos históricos, políticos, econômicos e sociais e bem… essa também é outra longa história.

O termo “sativa” significa cultivado, plantado. É encontrado nos nomes científicos de muitas espécies de plantas domesticadas, que os seres humanos passaram a cultivar quando deixaram de ser nômades e fincaram pé, literalmente, como agricultores. São dessa leva de batismo Avena sativa (aveia), Allium sativum (alho), Oryza sativa (arroz). Como sativa, Cannabis fez uma belíssima presença. Frequentou nobres salões, serviu a muitos curadores e fez até parte, vejam os senhores, da Farmacopeia Brasileira, parece que até 1929. Só que, outra vez, surgiu uma série de contratempos históricos, políticos, econômicos e sociais e bem… essa também é outra longa história.

Uma planta medicinal que, dia após dia, é certificada por mais e mais evidências. Pode ser preciso fazê-la “renascer”, para que consiga ser vista apenas – e tanto – como o que ela é: uma planta que traz benefícios.

Cannabis merece passar por uma absolvição, sabem? Como ocorre a todo egresso de um sistema prisional, o estigma é gigante, pessoa querida, é preciso dizer! Pode ser o caso de se querer adotar uma nova identidade, talvez um nome artístico, que o preconceito é grande e a ignorância… pode até ser fatal. Trata-se, convenhamos, de uma planta medicinal. Uma planta. Medicinal. E das mais nobres que, independentemente do contexto no qual foi inserida, traz um potencial terapêutico incontestável. Uma planta medicinal que, dia após dia, é certificada por mais e mais evidências. Pode ser preciso fazê-la “renascer”, para que consiga ser vista apenas – e tanto – como o que ela é: uma planta que traz benefícios.

Meu agradecimento aos que aceitaram minha prosa e esse exercício, de conhecer minha Cannabis officinalis. Porque é sempre com um nomezinho afetuoso e novinho que a gente chama a quem quer muito bem.

*Jackeline Barbosa é médica, com doutorado em Ciências Médicas pela UFRJ e Mestrado em Neurologia pela USP de Ribeirão Preto, e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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