Dentista experimenta o uso medicinal da Cannabis e paciente tem resultado após três dias do início do tratamento

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Paixão pelo tema, mas com conhecimento: há pouco mais de um ano que a doutora Cynthia começou a estudar Cannabis medicinal (Foto: Arquivo pessoal)

Charles Vilela

Há pouco mais de um ano, a cirurgiã-dentista Cynthia De Carlo começou a se interessar pelo uso medicinal da Cannabis. Suas primeiras incursões nesse universo aconteceram por meio de pesquisas e da realização de alguns cursos, a partir do tempo livre que surgiu com a redução dos atendimentos por conta da pandemia do novo coronavírus. “Tenho pacientes que são médicos e eles me relatavam o uso (medicinal da Cannabis) para (doenças como) autismo e epilepsia”, lembra. “O tabu (sobre o uso medicinal da Cannabis) existe ainda, mas está muito menor. Hoje, muita gente que você conversa já ouviu falar alguma coisa, já não se trata de um assunto novo e as pessoas já estão com algum tipo de informação (a respeito).”

Quanto mais se familiarizava com o assunto, mais forte ficava a certeza que a Cannabis tinha um potencial para uso na Odontologia, podendo auxiliar em algumas queixas frequentes de seus pacientes como dores nos dentes, na região do maxilar ou até mesmo em toda a face causadas pelo bruxismo ou por DTM (Disfunções Temporomandibulares). “(Entre colegas médicos) ouvia brincadeiras sobre a possibilidade do uso medicinal da maconha. Então, eu dizia: vamos estudar, nos aprofundar, é apenas um fitoterápico, uma planta”, lembra. “Pesquisei e vi que o uso medicinal da Cannabis não causa dependência. Às vezes temos que entrar com medicações de opioides fortíssimas em pacientes, que podem entrar num caso de dependência ao passo que a Cannabis não chega nisso. Então, me abriu uma janela e estou ficando apaixonada.”

Cynthia conta que ao conhecer mais sobre o uso medicinal da Cannabis, logo se interessou pelo sistema endocanabinoide do ser humano, pelo fato de a Odontologia tratar de diversas patologias crônicas. “Temos que lançar mão de muita coisa (na Odontologia) para tratar a dor orofacial e as crises de DTM, como laser e toxina botulínica”, disse. “Tudo isso para aliviar a musculatura, para reduzir uma tensão, porque o paciente tem dor de cabeça, tem dor de ouvido.”

Segundo a profissional, há casos que os médicos solicitam exames em que nada é detectado porque trata-se, na verdade de uma disfunção temporomandibular ou de dor trigeminal, que causam uma sensação de sensibilidade permanente que, às vezes, é um problema de nervo. “Existem muitos pacientes, que mesmo com o uso de medicação e placas, acabam com recidivas que, às vezes, não se consegue uma solução”, conta. “Se precisares de um anti-inflamatório ou antibiótico eu digo o que funciona ou não, mas a Cannabis é novidade.” 

Paciente de 79 anos sentiu melhora e deixou de usar a placa três dias após início do tratamento com Cannabis

A paciente de 79 anos de idade convidada a ter a primeira experiência com Cannabis medicinal no consultório da doutora Cynthia, reunia alguns comportamentos que geram ansiedade, fobia, falta de relaxamento muscular, entre outros. A rapidez do resultado do tratamento surpreendeu a dentista. “No terceiro ou quarto dia de uso da Cannabis (medicinal) ela deixou de usar a placa para bruxismo”, conta. “Além do bruxismo do sono, ela também o fazia durante o dia.” 

No decorrer do tratamento convencional da paciente, que ocorre há mais de quatro anos, já haviam sido substituídas várias placas de silicone e acrílico que acabavam desgastadas ou até com furos, tal era a pressão exercida pela mandíbula. E a dor, continuava. Mesmo com esse quadro, a paciente não fazia uso de opioides. Contudo, quando o ranger dos dentes se tornava muito intenso, ela recorria a anti-inflamatórios. “O apertamento (dos dentes) era tão forte que chegava a estourar a raiz e ocorrer quebra dentária”, lembra. 

Cynthia lembra que quando colocou à paciente pela primeira vez a possibilidade de experimentar o uso medicinal da Cannabis, não sabia ao certo como seria a sua  reação. Isso porque, além da desinformação que envolve o tema, há o aspecto financeiro para bancar a medicação por tratar-se de um produto relativamente caro. “Ela topou na hora fazer a experiência pois já havia lido sobre o assunto”, lembra. “Aquela coisa (que se espalha) de vizinha para vizinha. Ela disse que conhecia uma pessoa que havia trazido (o medicamento do) Chile para tratar dor de coluna.”

O tratamento está sendo feito à base de um óleo ful spectrum da marca Carmen’s Medicinals com 1500 mg/ml, com 1:1 de CDB e THC. O custo médio mensal da medicação, incluindo as despesas de transporte, fica abaixo de R$ 500. “O mais legal é perceber essa evolução em uma paciente que usou placa, estourou raiz (do dente) e três dias após o início do tratamento diz estar acordando mais disposta, se sentindo bem. 

Ela avalia que é compensador o custo benefício que o tratamento de Cannabis apresenta pelo fato de se tratar de uma terapia que soluciona o problema. “(Alguns deles) são pacientes que fizeram uso constante de placa, chegaram a estourar a placa, a situação era resolvida por um período e depois o problema voltava. São casos de reincidência, e chega um momento que o paciente acaba cansando porque ele já teve que fazer inúmeras placas e, então, passa a refletir sobre o custo que ele está arcando. Porque nada é barato na Odontologia.” 

Aquisição do produto de Cannabis medicinal foi mais fácil do se poderia imaginar  

Cynthia conta que a partir do interesse pelo tema, seu primeiro encaminhamento foi solicitar orientação aos conselhos profissionais de sua área – Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) e ao Conselho Federal de Odontologia (CFO) – para saber se poderia realizar a prescrição de Cannabis. A resposta do CRO foi que, se haviam se esgotado todas as alternativas, poderia se experimentar a Cannabis medicinal, por meio da obtenção de autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “Eu sabia que, segundo os conselhos, que o dentista tinha essa condição de prescrever qualquer tipo de medicação, então fiz a prescrição.” O pedido à Anvisa foi realizado em novembro, em janeiro veio a aprovação e pouco mais de duas semanas depois a medicação já estava com a paciente. “Nem foi necessário entrar via judicial”, afirma. “Fiz a receita normal, como pede o protocolo, e a paciente protocolou o pedido de liberação junto à Anvisa.”

Muitos dos casos tratados nos consultórios de odontologia têm agravantes externos 

Segundo a dentista, cerca de 80% da população sofre com o chamado bruxismo em vigilância, que, muitas vezes, não é percebido pelas pessoas e é muito mais grave do que o bruxismo do sono. Esse distúrbio ocorre, por exemplo, quando a pessoa morde uma caneta enquanto conversa ou outro comportamento rotineiro semelhante. 

Cerca de 50% dos pacientes atendidos por Cynthia, apresentam problemas relacionados com nervosismo, ansiedade e dor. A partir do êxito com o primeiro tratamento à base de Cannabis medicinal, ela pretende avaliar se parte deles não seria beneficiada por esse tratamento alternativo, com os que usam aparelhos intraorais para apneia do sono, ou os que apresentam fobia ao tratamento, passam mal nas sessões, entre outros agravantes. “Alguns (pacientes) chegam a suar frio (durante a consulta)”, conta. “Agora que deu certo (a experiência com o uso medicinal da Cannabis), espero poder trabalhar com muitos (outros pacientes). Todos aqueles (pacientes) que fizemos outras formas de tratamentos convencionais e não obtivemos êxito ou houve recidiva, vou sugerir passar para o tratamento de Cannabis.”

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