Por que os produtos à base de Cannabis são tão caros?

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Para Ferreira, políticas proibicionistas reduzem e encarecem absurdamente todas as fases de produção, impactando em preços elevados aos pacientes e consumidores, e dificultando o acesso aos produtos (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Ricardo Ferreira*

Independente do seu saldo bancário, é impossível achar que os produtos à base de Cannabis disponíveis por aqui sejam vendidos por um preço razoável. Eles são invariavelmente caros, pouco importando a marca, concentração, origem, ou se foram produzidos de forma artesanal ou industrial. 

Mesmo em países onde o acesso amplo à Cannabis já está em vigor, comprar qualquer coisa que venha desta planta fará um buraco na sua carteira. 

Essa dura realidade não fica restrita ao Brasil. Mesmo em países onde o acesso amplo à Cannabis já está em vigor, comprar qualquer coisa que venha desta planta fará um buraco na sua carteira. 

Independente do que está sendo vendido, o preço de qualquer produto costuma ser definido por fatores bem conhecidos. O mais óbvio é a diferença entre a oferta e a demanda, quanto mais raro e desejada alguma coisa é, mais caro ela tende a ser. Exemplos clássicos disso são metais e pedras preciosas como ouro, diamantes, esmeraldas e por aí vai. 

Mas nesta equação também entram outras variáveis como: custo de produção, gastos com transporte, tempo de prateleira (prazo de validade), margem de lucro e a malvada da carga tributária. 

O regramento vigente no Brasil permitiu desde o ano passado a produção de extratos de cannabis por laboratórios dentro do território nacional. Entretanto, o cultivo da Cannabis continua sendo proibido por aqui; obrigando que a matéria prima seja importada de outros países. 

O regramento vigente no Brasil permitiu desde o ano passado a produção de extratos de cannabis por laboratórios dentro do território nacional. Entretanto, o cultivo da Cannabis continua sendo proibido por aqui; obrigando que a matéria prima seja importada de outros países. 

Esta mesma regulamentação também permite às empresas nacionais a importação e distribuição de produtos já prontos. Além disso, ainda está vigente a regra que a ANVISA permite que um paciente faça a importação direta de extratos de cannabis para atender a sua necessidade médica pessoal. 

Alguns pacientes também conseguem obter seus extratos através de associações, produtores independentes e cultivo individual; seja através da desobediência civil ou protegidos por autorizações judiciais. 

Pensando de forma simplista, tendemos a achar que o fato do cultivo só poder ocorrer fora do Brasil seja o principal motivo para preços tão elevados… Mas a questão é bem mais complexa que isso. 

Pensando de forma simplista, tendemos a achar que o fato do cultivo só poder ocorrer fora do Brasil seja o principal motivo para preços tão elevados… Mas a questão é bem mais complexa que isso. 

Se traçarmos um paralelo com azeite de oliva, veremos que o fato das plantas estarem fora do nosso país, não faz do azeite um produto de difícil acesso. Em todo Brasil é possível comprar 500ml de um bom azeite por menos de R$15,00. O azeite não é barato, mas está longe de ter um custo proibitivo.

Não faz muito tempo que eu fiquei sabendo do quanto as oliveiras são árvores tinhosas. Elas só se adaptam a uma faixa de latitude restrita, e com condições de solo e clima bem específicos. Sem falar que elas demoram 10 anos para produzir azeitonas de boa qualidade para extração do azeite extra virgem. E é por isso que o azeite de oliva custa pelo menos o dobro do óleo de soja. Mas por outro lado seu preço é ínfimo se comparado com um óleo de cannabis. 

Os argumentos quanto ao cultivo acontecer em outros países, grandes dificuldades técnicas para a produção e necessidade de investimentos monumentais para cultivo não servem como justificativa para encarecer o preço final dos produtos canábicos.

Quem já teve a oportunidade de conhecer com um pouco mais de profundidade como é feito o cultivo da Cannabis, sabe que apesar desta planta ter algumas particularidades, ela é cultivável praticamente em qualquer lugar. Então, os argumentos quanto ao cultivo acontecer em outros países, grandes dificuldades técnicas para a produção e necessidade de investimentos monumentais para cultivo não servem como justificativa para encarecer o preço final dos produtos canábicos. 

Da mesma forma, os fatores da carga tributária e tempo de prateleira (prazo de validade) de produtos canábicos, não são muito diferentes dos de outros medicamentos fitoterápicos e extratos vegetais que podemos facilmente comprar em qualquer farmácia ou quitanda. 

Será a margem de lucro? Será que existe um conluio entre todos os produtores do mundo de cannabis para embutir margens de lucro abusivas? E toda esta distorção e paradoxo só tem uma razão: O proibicionismo canábico. 

Então o que sobra? Será a margem de lucro? Será que existe um conluio entre todos os produtores do mundo de cannabis para embutir margens de lucro abusivas? As leis do Sr. Mercado não se aplica a Cannabis?

A meu ver não é nada disso, mas ao mesmo tempo é tudo isso. E toda esta distorção e paradoxo só tem uma razão: O proibicionismo canábico. 

Proibicionismo é uma política de estado com finalidade de proibir ou pelo menos limitar ao máximo a circulação de algum produto ou atividade econômica. Em relação à cannabis ele não é praticado apenas no Brasil, mas sim em todo o mundo. 

Mesmo nos lugares onde o uso da cannabis já foi regulamentado o proibicionismo continua em vigor. E é por isso que na Califórnia ou Vancouver 1g de flores de cannabis não são vendidas por menos de U$10. 

O proibicionismo não é capaz de evitar que um adolescente acenda um baseado. Mas ele é bastante eficaz para atrapalhar a cadeia produtiva para quem atua dentro da legalidade, dificultando absurdamente a produção. 

O proibicionismo não é capaz de evitar que um adolescente acenda um baseado. Mas ele é bastante eficaz para atrapalhar a cadeia produtiva para quem atua dentro da legalidade, dificultando absurdamente a produção. 

Seus métodos são desde a exigência de pilhas e pilhas de documentos para registros e concessões, até o confinamento do cultivo em estruturas com arquitetura e segurança comparáveis a abrigos nucleares. E para conseguir atender a estas exigências são necessárias grandes quantidades de dinheiro, tempo e energia. 

Aqueles que optam por não seguir as exigências não ficam imunes aos seus impactos. Eles precisarão investir em infraestrutura de segurança, não podem expandir muito a sua capacidade produtiva para não chamarem muita atenção, e vão querer ser recompensados pelo risco que correm.

Então, seguindo ou não as regras, de uma forma ou de outra todos os processos são afetados. E esse é o real motivo do elevadíssimo preço dos produtos à base de cannabis independente da origem deste produto. 

Direta ou indiretamente as políticas proibicionistas reduzem e encarecem absurdamente todas as fases de produção, limitando drasticamente a capacidade produtiva, e jogando para cima todas as variáveis que resultarão no alto preço final. E quem paga é o paciente; seja com dinheiro, ou com a manutenção do seu sofrimento pela falta de possibilidade de acesso. 

Se você é favorável ao uso medicinal da cannabis e seus derivados, mas entende que seu elevado custo é um problema real… Não basta simplesmente se posicionar à favor do cannabis como medicamento. Apesar do seu apoio ser importante, ele sozinho não é o suficiente para promover o acesso para a grande maioria das pessoas que precisam desta planta. 

Com base em tudo isso, ser contra o proibicionismo é ser a favor da ampliação do acesso à cannabis como medicamento.

*Ricardo Ferreira é médico especialista no tratamento de doenças da coluna vertebral e controle da dor e colunista do Sechat.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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