Sistema Endocanabinoide, sono e transtornos do sono

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Segundo o colunista, substâncias como a GABA, adenosina e prostaglandinas propiciam o sono NREM, enquanto a acetilcolina e o glutamato otimizam o sono REM (Foto: Arquivo pessoal)

Coluna de Wilson Lessa*

“Quando se tem insônia você nunca dorme de verdade e você nunca acorda de verdade” Clube da Luta.

Quando pensamos em transtornos do sono, logo pensamos na insônia, que pode ser de conciliação (início), manutenção ou terminal (despertar precoce). Todavia, são conhecidos ao menos 50 tipos de transtornos do sono, incluindo a sonolência diurna excessiva e a apneia do sono. 

O que conhecemos como ciclo circadiano, implica em um complexo sistema neuroendócrino que controla nossos períodos de sono e vigilância. Também conhecido como ciclo sono-vigília, inclui o estado de vigília (acordado), e os estados de sono NREM e REM (sem e com movimentos oculares rápidos, respectivamente). 

Substâncias como a serotonina, orexina, noradrenalina e a histamina estão relacionadas ao estado de vigilância; GABA, adenosina e prostaglandinas propiciam o sono NREM e a acetilcolina e o glutamato otimizam o sono REM. O nível de luz, principalmente do espectro solar interfere diretamente neste ciclo.

Cada um desses estados é controlado por estruturas cerebrais especializadas, e por um balanço de neurotransmissores que mantém o tônus flutuante deste ciclo. Substâncias como a serotonina, orexina, noradrenalina e a histamina estão relacionadas ao estado de vigilância; GABA, adenosina e prostaglandinas propiciam o sono NREM e a acetilcolina e o glutamato otimizam o sono REM. O nível de luz, principalmente do espectro solar interfere diretamente neste ciclo. E o Núcleo Supraquiasmático funciona como que um relógio central desse ciclo circadiano.

O sistema endocanabinoide, descoberto há pelo menos 30 anos, exerce uma função de modulação homeostática dentro do ciclo sono-vigília. Para se ter uma ideia, a quantidade de endocanabinoides no cérebro (Anandamida e 2-AG) e o nível das enzimas envolvidas em sua metabolização e síntese apresentam uma variação ao longo do dia. Além disso, a privação seletiva do sono REM causa uma redução na expressão dos receptores canabinoides CB1, enquanto um período de duas horas de sono causa elevação dos níveis dos mesmos receptores.

Para exemplificar, a Anandamida (AEA) está aumentada durante o período escuro em diversas estruturas cerebrais (hipocampo, ponte, hipotálamo, córtex pré-frontal, estriado e núcleo accumbens), enquanto a quantidade de 2-AG fica maior no período com luz no núcleo accumbens, córtex pré-frontal, estriado e hipocampo do que a AEA nas mesmas regiões e horários do dia.

Em um estudo observacional em pacientes com diversos transtornos do sono, que receberam diversos remédios, incluindo extratos de Cannabis, foi observado que com a utilização dos extratos de Cannabis ao menos 53% dos pacientes obtiverem efeitos muito positivos, 21.5 % efeitos levemente positivos e 22.5 % efeitos moderadamente positivos.

Em um estudo observacional em 1869, conduzido por Bernhard Fronmuller, um médico na Alemanha, em quase mil pacientes com diversos transtornos do sono, que receberam diversos remédios, incluindo extratos de Cannabis, foi observado que com a utilização dos extratos de Cannabis ao menos 53% dos pacientes obtiverem efeitos muito positivos, 21.5 % efeitos levemente positivos e 22.5 % efeitos moderadamente positivos.

Em um estudo publicado em 2019 no Permanente Journal, no estado do Colorado nos EUA, pesquisadores avaliaram os efeitos clínicos de 72 homens e mulheres em acompanhamento psiquiátrico a quem foram oferecidos CBD (25 mg/dia em cápsulas, em média) para ansiedade e sono deficitário. Após um mês de tratamento, 79% relataram melhora na Ansiedade e perto de 67% disseram que estavam desfrutando de um sono melhor.

Os canabinoides podem auxiliar a um melhor descanso noturno por modular a dor nos quadros de dores crônicas. Em um estudo de 2007 foi observado que 50% de 1 mil pacientes com dores relacionadas à esclerose multiplica e ao câncer tiveram uma boa melhora no sono com o uso do Sativex (Mevatyl) , um spray oral com 2,7 mg/THC e 2,5 mg/CBD por spray, vendido nas farmácias no Brasil desde janeiro de 2017 a um preço médio de 2,8 mil R$.

Adicionalmente, alguns pacientes, especialmente que apresentam o Transtorno do Estresse Pós-Traumático, relatam que os canabinoides auxiliam na prevenção dos pesadelos. A Dra. Bonni Goldstein possui ampla experiência com melhora nos transtornos do sono em pacientes com insônia primária, apneia do sono, síndrome das pernas inquietas, pesadelos e bruxismo e uma observação importante é que os pacientes não acordam de ressaca.

O THC, em dosagens baixas (1-2,5 mg) para a maioria dos pacientes, tem efeito hipnótico (indutor do sono). Com muita segurança e tolerabilidade e baixíssimo risco de dependência.

Algo bem interessante e útil é que o CBD em dosagens mais baixas costuma ter um efeito de otimizador do estado de vigilância, comparado ao efeito do metilfenidato, do modafinila e da fluoxetina por exemplo. Desse modo, podendo ser útil também nas síndromes de sonolência diurna.

São necessários mais estudos clínicos para um melhor conhecimento dos mecanismos de ação e maior nível científico de evidência clínica. Todavia, a segurança e tolerabilidade dos canabinoides prescritos por um profissional habilitado, oferecem uma nova ferramenta para diversos transtornos do sono.

Referências

Méndez-Díaz M., Ruiz-Contreras A.E., Cortés-Morelos J., Prospéro-García O. (2021) Cannabinoids and Sleep/Wake Control. In: Monti J.M., Pandi-Perumal S.R., Murillo-Rodríguez E. (eds) Cannabinoids and Sleep. Advances in Experimental Medicine and Biology, vol 1297. Springer, Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-030-61663-2_6

Goldstein, B.S. . (2020).Cannabis is Medicine;

The Esssential Guide to CBD – Reader´s Digest (2021).

*Wilson Lessa é Médico Psiquiatra, Psiquiatra Forense, professor da faculdade de Medicina da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e colunista do Sechat.

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