Dia de plantar a empatia

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Mara Cristina Gabrilli é uma psicóloga, publicitária e política brasileira, filiada ao Partido da Social Democracia Brasileira. Foi vereadora de São Paulo, deputada federal e atualmente é Senadora da República pelo estado. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Mara Gabrilli

Desde que quebrei o pescoço, aos 26 anos, sinto que minha capacidade de me colocar no lugar do outro ganhou um upgrade. Passei a olhar com mais profundidade e aptidão para vulnerabilidades, e fazer desse olhar uma ferramenta de trabalho. 

Foi assim quando me expus, dois anos atrás, na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, na tentativa de sensibilizar meus colegas a aprovar a sugestão legislativa que propunha a regulamentação do uso medicinal da cannabis e do cânhamo no Brasil.

À época, minha equipe e eu sabíamos de todos os entraves e resistências que orbitavam o tema, mas me imbuí da dor de milhares de pessoas com deficiência, que diferente de mim, não possuem condições de importar medicamentos à base de cannabis. Minha intenção era a de entranhar empatia entre os participantes da discussão.

O Mevatyl ou Sativex, foi o primeiro medicamento aprovado pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2017 e  com mais de 1% de tetra-tetraidrocanabinol (THC) na sua composição (Foto: Divulgação)

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Naquele setembro de 2019, levei à sessão  meu frasco de Mevatyl, medicamento com alta concentração de Tetra-hidrocanabinol, o THC, substância demonizada entre alguns parlamentares, mas que desde 2018 está disponível em farmácias brasileiras àqueles que têm condições de arcar com as onerosas borrifadas do spray aprovado pela ANVISA. 

Revelei aos parlamentares que a paralisia, além da perda de movimentos, vem acompanhada de diversas questões que nos roubam a qualidade de vida: espasmos, dores neuropáticas, distúrbios no intestino e na bexiga, falta de energia, insônia e, consequentemente, tristeza.

Lembrei que ser cadeirante no Brasil é pagar para fazer xixi, cocô, ir e vir. Tudo tem um preço. No fim, o projeto, que estava prestes a sair de pauta, acabou sendo aprovado com apenas um voto contrário, o do senador Eduardo Girão.

Foi expondo meu drama pessoal, que alcançamos um diálogo sobre problemas que não são exclusivos de uma pessoa com lesão medular. Longe disso, junto a outros senadores que apoiam a causa, mostramos que há um contingente de brasileiros que poderiam ser tratados com a cannabis medicinal. 

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Pessoas com esclerose múltipla, por exemplo, são beneficiadas com a cannabis, relaxando a musculatura, reduzindo as dores crônicas, melhorando o sono e protegendo os olhos dos comuns ‘borrões’ ocasionados pelas lesões no cérebro. Outros benefícios podem ser alcançados por quem sofre de ELA, a esclerose lateral amiotrófica, aliviando  a espasticidade e as dores. 

Eu poderia, por horas, elucidar outros inúmeros ganhos que a cannabis medicinal também pode trazer às pessoas com Alzheimer, Autismo, Epilepsia, Parkinson, Glaucoma, Síndrome de Tourette, câncer… 

Contudo, para esses – e tantos outros casos – o que há em comum é a dor. E é para ela que quero chamar a atenção. 

Não consigo imaginar nada mais dilacerante que a dor de uma mãe assistindo seu filho convulsionar sem nada poder fazer. E a dor dessa criança, que a cada convulsão tem uma perda funcional. Muitas vezes, o dano é tão grave e irreversível, que todo seu futuro é comprometido.

Dói profundamente saber que há uma saída para atenuar o sofrimento dessas famílias, mas o preconceito e a falta de empatia ainda içam muralhas em nosso país, separando claramente quem pode ou não ter qualidade de vida. 

Nesses casos, o acesso à saúde é separado por um abismo entre pobres e ricos. E não reconhecer essa realidade é o mesmo que decretar nossa falência como humanidade.

Por isso, falar de cannabis medicinal é desconstruir ideias puramente falaciosas e cruéis. A principal – e mais nociva de todas – é a de que não há evidências científicas que comprovem o benefício da planta. Uma planta, que historicamente esteve atrelada a guetos e minorias discriminadas. E é aí onde histórias seculares se cruzam aqui, porque nós, pessoas com deficiência, ainda fazemos parte de um Brasil que segrega.

Enquanto isso, o restante do mundo aponta outro norte, com inúmeros países aprovando leis que permitem o plantio de cannabis com fins medicinais. Alemanha, Austrália, Canadá, Chile, Colômbia, Holanda, Israel, Reino Unido e nosso vizinho Uruguai são apenas alguns exemplos.

Resolvi relembrar essa sessão na CDH, porque hoje é Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. E só podemos de fato celebrar a data se a sociedade exercitar a empatia. Não a lembramos em 21 de setembro por um mero acaso. Trata-se do início da Primavera, Dia da Árvore, épocas que representam o renascer das plantas e o sentimento de renovação. E o Brasil atual é a antítese da mudança que buscamos. Infelizmente, nunca precisamos tanto lutar contra retrocessos. 

Não queremos apenas manter nossos direitos, conquistados a duras penas, mas andar para frente, vislumbrar um futuro próspero, de oportunidades iguais. Regulamentar a cannabis medicinal é urgente, não apenas por ser uma pauta de saúde pública, mas por toda a simbologia que há por trás da aceitação desta planta milenar. 

Permitir que pessoas com e sem deficiência se tratem com a cannabis, sem marginalização, mas com segurança, controle e respeito, demove o status do Brasil de nação que caminha para trás.

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Que esse Dia de Luta das Pessoas com Deficiência sirva de inspiração para que nossos representantes públicos – e toda a sociedade – olhem com mais afinco, cuidado e carinho para a dor do outro. Só assim alcançaremos um país onde saúde e qualidade de vida não serão privilégios, mas direitos inerentes das também minorias que, na verdade, sabemos que são gigantes. São elas que matam um leão por dia para viver, movimentam nosso país e conseguem plantar esperança para seguirmos em frente.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

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