Exclusivo: Sechat entrevista o filho de Pablo Escobar

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Foto: Reprodução/Instagram

Por João R. Negromonte e Camila Evangelisti

Filho do maior narcotraficante colombiano, Pablo Escobar, Sebastián Marroquín marcou presença na tarde desta quarta-feira (20/10), no Polo de Impacto Cívico Socioambiental (CIVI-CO), para uma visita prévia do evento Cannabis Thinking que ocorrerá neste sábado dia 23/10.

Sebastián, nome que ele encontrou em uma lista telefônica e adotou como novo nome para conseguir uma nova identidade, visto que seu sobrenome fechava algumas portas, está de visita ao Brasil e será um dos speakers do evento.

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Aproveitando a oportunidade, o Sechat conseguiu uma entrevista exclusiva com essa figura que aparentemente não herdou as características perversas do pai, pelo contrário, Sebastián demonstrou um conhecimento e uma maturidade sobre política, negócios e desenvolvimento social (dentro de um contexto proibicionista das drogas), invejável.

O bate papo foi descontraído e poderíamos ficar ali horas conversando, mas devido ao pouco tempo de disponibilidade do nosso entrevistado, realizamos 10 perguntas que trazemos na íntegra aqui para vocês, acompanhe:

Sechat1. Conte um pouco da sua história, como é ser filho do Pablo Escobar? Gostaria que retratasse alguns momentos bons e ruins que viveu com ele.

SebastiánOlha, ser filho de Pablo Escobar às vezes parece que te condiciona a tantas coisas… Muitos esperam que você seja um “Pablo Escobar 2.0”, muitos esperam que você seja o chefe de um cartel, uma pessoa violenta, mas eu sou o o oposto! O que meu pai fez foi nos mostrar o caminho que não devemos percorrer, pois estava ciente das consequências da violência que ele gerou e como isso depois voltou para nós. Tenho boas lembranças de meu pai, como um bom pai que estava comigo, ele me deu bons conselhos, mas fora de casa não praticava os mesmos ensinamentos. No entanto, digamos que ele cumpriu seu papel de pai. Cresci como uma boa pessoa com boas intenções, com amor de ambos os lados (tanto do pai quanto da mãe). Então tenho momentos de muito carinho e lindas lembranças com meu pai e tenho outros que também estão cheios de violência, terrorismo, sangue e morte.

Sechat – 2. Seu primeiro livro conta diversas histórias, inclusive com algumas que envolvem alguns “inimigos”. Como foi estar cara a cara com essas pessoas?

Sebastián – Bem, foi muito difícil, a verdade é que quando cheguei sozinho, por exemplo, para falar com um chefe paramilitar e vejo que esse homem chega com 25 homens que cuidam dele, já era tarde demais para me arrepender de estar naquele lugar. Mas lá, naquela hora, me perguntei o que estou fazendo aqui? Qual é o propósito da minha visita? E eu acho que objetivo foi justamente contar tudo o que vivemos de ambos os lados das famílias, porque nunca se ouve apenas uma versão há sempre duas que eu queria que me contassem e, através dos meus livros, dai voz às suas histórias para que pudessem contar a versão que eles sabem do meu pai e não somente a minha versão. Já no meu segundo livro, abordamos os inimigos do meu pai. Quis correr esse risco pois acreditava que era também uma oportunidade para fazer as pazes com eles e isso realmente aconteceu. Então isso nos permitiu construir uma história que além de serem contadas ali, geraram uma série de eventos e situações de paz entre pessoas que estiveram em conflito no passado. O livro serviu de desculpa para que eles contassem suas histórias e também para nós firmamos nosso “acordo de paz”.

Sechat – 3. Como os colombianos tratam você e sua família? Há alguma culpa ou sentimento de vingança? Ou existe um entendimento que separa o Sebastian do Pablo?

Sebastián – Eu creio que a cada dia que passa na Colômbia, as pessoas e autoridades começam a entender que somos indivíduos que, embora sejamos da mesma família, não pensamos o mesmo e não agimos igual, temos valores humanos muito mais fortes e mais respeitosos com a vida e com os direitos dos outros. De forma alguma pretendemos continuar com o legado de meu pai. Dessa forma, as pessoas começaram a apreciar o que demos além de uma mensagem aos jovens para que eles não repetissem o legado de meu pai.

Sechat – 4. Como a regulamentação impacta no social? Você acredita que ao tornar a cannabis legal, as camadas menos favorecidas da sociedade serão beneficiadas?

Sebastián – Olha, eu definitivamente acredito que proibição é sinônimo de guerra, é sinônimo de violência, é sinônimo de corrupção, é sinônimo de perda de todos os valores humanos e respeito pelo resto. Eu acredito que a regularização da cannabis (para uso medicinal e adulto), vai acontecer na Colômbia e em outros países. Isso permite que os governos tenham paz na convivência com seus cidadãos, porque o que a proibição imediatamente propõe é uma divisão e um confronto entre as partes, algumas que querem fazer uma coisa e outras que querem fazer outra, então eu sinto que de alguma forma os governos que estão procedendo à legalização terão muito mais recursos legais para atender às necessidades daquelas pessoas que vivem à margem, caso contrário, com a visão que alguns tem hoje, estão gastando em uma guerra contra as drogas que todos sabemos que já está perdida. Então eu sinto que o ato de legalizar tem que ter um impacto positivo na sociedade em geral, independente de onde você esteja.

Sechat – 5. Na Colômbia, a posse, a venda, o transporte e o cultivo doméstico de cannabis são regulamentados. A lei, aprovada em julho de 2016, fez do país o primeiro a regularizar e legalizar a cannabis para fins médicos e científicos na América Latina. Gostaria que fizesse uma relação entre o antes e depois dessa regulamentação. Qual a solução você daria para resolver o problema da guerra as drogas e ao mesmo tempo não deixar as autoridades com todo esse poder nas mãos?

Sebastián – Acredito que hoje as autoridades têm mais poder com a proibição do que com a legalização e que temem perder esse domínio que a censura lhes dá. Então, creio eu que a única solução para o problema das drogas que temos no planeta é a educação. Por 100 anos temos declarado guerra às drogas e, para entender seu fracasso, basta olhar para a história do meu país, com seus números de mortes e execuções. Hoje temos mais hectares de coca plantados do que nunca antes na história. Isso significa que não houve um minuto de sucesso na guerra contra as drogas. O jeito que educamos as pessoas, tem que ser bem planejado para que saibam que abusar de substâncias é prejudicial. Legalizar não é dizer às pessoas que as drogas são boas e você tem que se matar com o que não está legalizado. Regulamentar e tomar consciência que o ato de proibição de um governo a uma determinada substância é uma ação de irresponsabilidade de dizer: “eu não quero me encarregar da substância e você que é um traficante de drogas eu vou te perseguir e tentar te pegar”. “Ao mesmo tempo, você vai ter dinheiro suficiente, graças à minha ajuda, porque com meu decreto proibicionista eu te deixo mais rico e mais poderoso para que você possa me comprar e para que eu nunca persiga você como devo persegui-lo”. É um caso maquiavélico, pois os políticos que financiam os carteis, são os mesmos que financiam sua própria corrupção.

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Sechat – 6. Qual seu posicionamento em relação a cannabis? Você acredita que ela pode atingir um status de produto de alto valor agregado com uma possível regulamentação no Brasil? Ou mesmo com uma legalização, as pessoas ainda sim recorrerão ao tráfico?

Sebastián – Acredito que o Brasil, assim como muitos outros países da América Latina e o resto do planeta, tem a oportunidade única de, espero, ser o primeiro a iniciar o processo de legalização, acredito que isso lhe daria vantagens estratégicas muito maiores do que se eles deixarem para o último minuto. Acho que é uma questão que precisa ser tratada com urgência porque muitas mortes e muita violência poderiam ser evitadas se esse problema fosse realmente resolvido. Gerando, digamos assim, movimentos importantes que estão impulsionando o debate para que possa ser falado desde o início, pois assim deixa de ser um tabu. Claro que não se resolve proibindo, é resolvido de outras maneiras. Temos que dar espaço para essas conversas e debates, mas sem colocar o preconceito em primeiro lugar, pois senão não podemos aprender nada com a nova forma de como esse problema poderia ser encarado e talvez assim, deixar de ser um problema.

Sechat – 7. Você acredita que o Brasil pode seguir os mesmos passos de outros países que regulamentaram a cannabis na América Latina? Ou seria um pensamento utópico visto o atual governo?

Sebástián – Eu tenho muito respeito pelas decisões internas de cada país e de cada governo, não tenho interesse em me envolver na política e entendo que isso deveria estar à margem dela, porque teria que ser mais do que um política imediata de alguém, mas sim, uma política de estado que pense no bem-estar da maioria e não nos caprichos de poucos ou nos preconceitos sobre a falta de educação. Há momentos em que as decisões de certos governos são dada pela falta de experiência que eles têm do assunto, então eles preferem proibir, proibir e proibir. Por não ter conhecimento do problema é mais fácil negá-lo do que tentar encontrar uma solução, que não necessariamente, tem que envolver corrupção e violência.

Sechat – 8. No Brasil, a série NARCOS, da Netflix, fez muito sucesso. Porém, vimos alguns comentários negativos vindo de você a respeito dela. O que justifica essas críticas? O que não te agradou?

Sebastián – Bem, eu não gosto porque eles não me contrataram! (Risos). Me coloquei a disposição da Netflix, ofereci-lhes acesso absoluto ao arquivo fotográfico da minha família, tenho mais de 30 mil fotografias de todas as épocas do meu pai e da minha família. Também tenho cartas manuscritas, documentos em vídeos, tudo o que você quer saber sobre a historia nossa família e eles me falaram que não estão interessados. Como é possível eu nunca te contar nada e você já saber tudo? É assim que termina na construção de uma série de televisão que inspira os jovens a se tornarem traficantes de drogas. Eu tenho viajado e conheço muitas partes e do México, por exemplo, mais precisamente 24 estados dos 30 e poucos existentes. Pude ver de perto pesquisas onde 70% dos jovens dizem que seu sonho, quando crescerem, é ser um traficante de drogas, assassinos ou líderes de carteis, tudo pois a série mostra meu pai como um homem de sucesso. A Netflix não está assumindo a responsabilidade pelas consequências que está gerando na sociedade para produtos que fazem muito sucesso. Que são bons produtos, eu não contesto isso, são muito bons(…), para quem não conhece a história. Pra quem conhece, são aterrorizantes! Gostaria de ver uma série de Pablo Escobar onde eu não queira ser Pablo Escobar. Olha, são muitos jovens, recebo pelo menos 3.000 mensagens por dia nas redes sociais e depois dizer que metade das mensagens com o seguinte conteúdo: “Olá, como vai? Acabei de ver NARCOS, quero ser como seu pai, como faço?” Eles estão fazendo crer que Pablo Escobar é um caso de sucesso e, meu pai não pode ser considerado um caso de sucesso.

Sechat – 9. Sobre a terceira edição do Cannabis Thinking, quais suas espectativas para o evento?

Sebastián – Minha expectativa é que no dia seguinte eles anunciem a legalização total! (Risos)… Olhe, para mim, como um cidadão do planeta terra, não de qualquer país em particular, acho que todos devemos apoiar políticas que gerem paz. Essa é a responsabilidade do cidadão. Se você como cidadão e uma grande maioria, começa a detectar que existem certas leis e certas estruturas institucionais que não estão contribuindo para a paz, porque pensavam diferente no passado e se pensava que era bom fazer determinada ação lá atrás, agora não é certo mais. Agora pensamos diferente e, é para isso que estamos aqui, para aprender a receber novas propostas de como enfrentar problemas que nos acompanharão pelo resto da vida. Veja, se juntar todos os policiais do mundo e prender ou matar todos os traficantes que existem, você acha que o tráfico acaba? Se a resposta é não é porque o problema não está no traficante, mas sim nos usuários, mas esses são bem mais difíceis de controlar. Ou seja, não se trata de um problema de repressão policial ou de justiça, mas sim de saúde pública.

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Sechat – 10. Uma pergunta um pouco diferente, vamos tratar como uma curiosidade pessoal. Se seu pai estivesse aqui agora, o que diria para ele?

Sebastián – Na última linha do meu livro, agradeço a meu pai Deus por ter me mostrado o caminho que eu não devo percorrer. Eu diria isso a ele e diria também que o quero, que o amo e não sou eu que irá julgá-lo. Em vida, quando estava cara a cara com ele, disse tudo que eu pensava. Que era contra sua violência, contra o terrorismo, contra seus sequestros, de toda a criminalidade que ele era, mas ele sempre teve uma desculpa para justificar o lugar que ele estava ocupando. Sempre houve uma relação de muito respeito entre pai e filho e eu valorizo ​​muito isso e sou grato por ter sido criado, embora ele fosse um homem que fora de casa era muito violento, eu fico com o homem que conheci dentro de casa.

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