Autismo na vida adulta: a luta contra a ansiedade e o alívio com a cannabis medicinal

Após uma vida de desafios intensos, a biomédica Karina Rassú encontrou na cannabis medicinal um caminho para qualidade de vida. Conheça sua história e os avanços da ciência no tratamento do TEA

Publicada em 03/04/2025

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(Reprodução IA)

Nosso cérebro é uma caixinha cheia de memórias armazenadas ao longo da vida. Algumas pessoas lidam bem com pequenos esquecimentos, enquanto outras se redescobrem através desses lapsos. Esquecer faz parte da vida, mas o que acontece quando a memória é um sinal de algo maior?


 

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Karina descobriu o diagnóstico do TEA após a maternidade. (Foto: Arquivo Pessoal)

A biomédica Karina Rassú conhece bem esse percurso. Aos 39 anos, ela recebeu a confirmação de algo que já intuía desde a infância. "Eu não fui buscar esse diagnóstico. Desde os meus 17 anos, faço acompanhamento psiquiátrico e psicológico, e todo mundo sabia que eu era diferente, mas ninguém sabia dar um nome para isso", conta. 


As crises já estavam presentes na infância, mas nos anos 1980, especialmente para meninas, o autismo era um diagnóstico invisibilizado. Na época, ela conta que o médico desconsiderou a crise, a nomeando de causa idiopática. “Nos momentos das minhas crises de infância, me lembro de já não conseguir falar, eu literalmente tratava, sabe?”, rememora Karina, que sofreu retaliações de amigos e familiares na época.


 

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Foi após a maternidade atípica que ela descobriu o TEA em sua vida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ela é mãe de Matteo e Lucca, e quando um de seus dois filhos recebeu a confirmação do espectro autista, sua neuropediatra a aconselhou a investigar o próprio caso. "Quando veio o diagnóstico do meu filho mais velho, percebi que ele fazia exatamente as mesmas coisas que eu fazia quando pequena. A diferença é que agora, ao menos, tinha um nome para isso”, disse.

 


O impacto da ansiedade extrema


O autismo de Karina sempre esteve acompanhado de uma ansiedade intensa. Durante a pandemia da Covid-19, onde as pessoas tinham que seguir à risca o isolamento social, essa sensação tomou proporções incontroláveis, afetando sua fala e funções gastrointestinais. "Fiquei uma semana sem me comunicar. Durante as crises, meu corpo simplesmente desligava. Eu não conseguia falar, não conseguia sair de casa porque não tinha controle do esfíncter. Era algo muito humilhante e desesperador", relembra.


Esse tipo de resposta extrema ao estresse, conhecida como mutismo seletivo ou resposta dissociativa, é comum em situações de sobrecarga emocional severa. “Quando somos diagnosticados na vida adulta, muitos questionam sobre como conseguimos viver até aqui, mas a realidade é que eu não vivi, eu sobrevivi”, afirma.


Conseguir dormir, sair de casa, interagir e relacionar-se são um dos fatores que pegam as pessoas diagnosticadas com autismo. Hoje em dia, após o uso do canabidiol, Karina se sente preparada e com mais qualidade de viver e o que antes era dificílimo hoje é uma batalha vencida. "A ansiedade me impedia de viver. Eu estava parando a faculdade de Biomedicina e não sabia mais o que fazer. Foi quando conheci o Dr. Diego Araldi”, explica.


Cannabis medicinal e os benefícios para pacientes com TEA

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O médico Diego Araldi afima que a cannabis age diretamente no sistemaendocanabinoide, regulando funões neurodivergentes que dão um equilibrio à pacientes do TEA. (Foto: Divulgação)


Especialista em medicina endocanabinoide, Diego Araldi, médico da Karina, falou com a gente sobre o assunto. Ele acompanha pacientes autistas que sofrem com crises de ansiedade severa. "Essa ansiedade pode afetar gravemente o cotidiano, dificultando a vida social, acadêmica e profissional, além de contribuir para quadros de depressão, fobias e crises de pânico. A cannabis age no sistema endocanabinoide, que regula funções como humor, sono e resposta ao estresse. Em pacientes com TEA, observamos uma redução significativa da ansiedade, melhora no sono e atenuação de comportamentos repetitivos", explica o médico.


Sobre a perda da fala, ele faz o alerta: “durante uma crise intensa, o cérebro pode desligar funções como a fala como um mecanismo de autoproteção. Embora não seja frequente em todos os casos, é um sintoma observado em situações de sobrecarga emocional severa, especialmente em pessoas neurodivergentes”.

Cannabis medicinal: a esperança de um recomeço


Para Karina, a introdução do óleo de cannabis na rotina representou um recomeço. "Comecei com o Broad Spectrum, sem THC, e logo notei melhora no humor. Mas foi com o Full Spectrum, com baixo teor de THC, que minha qualidade de vida realmente mudou. Pela primeira vez, meu intestino se estabilizou, minha fala voltou e consegui retomar a vida acadêmica e profissional”, revela a biomédica que teve que tomar mais de 16 alopáticos até chegar na cannabis medicinal.

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Karina chegou a trancar a faculdade de Biomedicina, mas hoje, orgulha-se da caminhada pós introdução da cannabis medicinal em seu tratamento (Foto: Arquivo Pessoal)


Hoje, Karina concilia o trabalho como biomédica com a maternidade atípica, e quer levar sua experiência ao maior número de pessoas possível. "A cannabis me tirou do estado de sobrevivência e me fez viver de verdade. Nunca imaginei que conseguiria concluir minha graduação, muito menos iniciar três pós-graduações ao mesmo tempo. Agora, quero compartilhar essa jornada para ajudar outras mulheres autistas a encontrarem qualidade de vida”, pontuou a biomédica que vai criar como meta dos 40 anos, um podcast sobre o tema.


A história de Karina é uma das muitas que evidenciam o impacto positivo da cannabis medicinal no tratamento do TEA. Embora ainda exista preconceito e barreiras no acesso ao tratamento, especialistas e pacientes reforçam a importância do debate e da ampliação da pesquisa sobre os fitocanabinoides. 


 

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Araldi acredita que o futuro da cannabis medicinal no Brasil é promissor. (Foto: Divulgação)

Já, para o médico, esse cenário vem mudando gradualmente com a publicação de novos estudos e relatos positivos de quem já utiliza o tratamento. “O futuro é promissor. Hoje já temos uma base científica sólida mostrando a eficácia e segurança da cannabis medicinal para diversos sintomas associados ao TEA. Pesquisas estão avançando para entender melhor as doses ideais, os perfis de resposta individual e possíveis associações com outras terapias. A tendência é que, nos próximos anos, tenhamos protocolos cada vez mais personalizados e acessíveis”, finaliza.

Campanha Abril Azul: a importância do diagnóstico e do acolhimento


Abril é o mês da conscientização sobre o TEA. O Abril Azul reforça a necessidade de acolhimento e tratamento adequado para autistas, independentemente da idade.


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o TEA afeta cerca de uma em cada 100 crianças no mundo. No Brasil, estima-se que mais de 2 milhões de pessoas estejam no espectro. Dados do SUS mostram que, em 2021, foram registrados 9,6 milhões de atendimentos a pessoas com TEA, sendo 4,1 milhões voltados para crianças de até nove anos.

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Dra. Karina superou os próprios limites e hoje leva o autismo consigo, adaptando aqui e ali e se reconectando com sua essência. (Foto: Arquivo Pessoal)


Os números mostram a urgência de políticas públicas para diagnóstico precoce e suporte contínuo. Afinal, como Karina costuma dizer: "Antes, eu sobrevivia. Agora, eu vivo”.