Cannabis Medicinal Sem Achismo: O que a ciência comprova sobre os benefícios da planta?
Especialistas explicam, com base científica, como a cannabis atua no organismo e em quais condições há evidências comprovadas de eficácia.
Publicada em 09/04/2026

Pesquisadoras explicam benefícios da cannabis medicinal com base científica. Imagem gerada por IA
Em um cenário onde o uso da cannabis medicinal ganha cada vez mais destaque e curiosidade por parte do público, separar o "achismo" da ciência rigorosa é fundamental. Para debater as evidências científicas e os benefícios da terapia endocanabinoide, o portal Sechat conversou com duas cientistas brasileiras: Helena Joaquim e Alana Costa, que atuam na GreenCare Pharma - possuem uma vasta bagagem acadêmica em neurociências e pesquisa clínica, e explicam como a planta interage no corpo humano e por que estudos rigorosos são o futuro desse setor.
Evidências Científicas: Para que a Cannabis realmente funciona?
Uma das principais polêmicas sobre a cannabis gira em torno da sua real eficácia. Alana Costa alerta que é preciso diferenciar a "ausência de evidência" (quando um benefício ainda não foi rigorosamente testado) da "evidência de ausência" (quando já se provou que não funciona).
Atualmente, segundo a pesquisadora, a literatura médica já aponta alta robustez científica para algumas condições primordiais:
- Epilepsias farmacorresistentes: Especialmente em três síndromes raras, onde as dosagens e mecanismos já são muito bem conhecidos.
- Espasticidade na esclerose múltipla: Outra condição neurológica que responde extremamente bem à medicação à base de canabinoides.
- Sintomas comportamentais e dores crônicas: Trata-se de um amplo grupo de condições que abrange quadros ansiosos severos, dores neuropáticas, fibromialgia e neuropatias diabéticas, que também apresentam fortes evidências de resposta terapêutica positiva.
Nem toda "Cannabis" é igual
Helena Joaquim destaca um ponto de atenção crucial: ler estudos sobre a cannabis exige cautela, pois estamos falando de compostos com dezenas de moléculas ativas. Generalizar o seu uso pode ser um erro.
Ela explica que a eficácia nos quadros de epilepsia farmacorresistente, por exemplo, ocorre primordialmente com o Canabidiol (CBD) isolado ou em maior quantidade. Já no tratamento da espasticidade ligada à esclerose múltipla, as evidências apontam para formulações equilibradas contendo uma proporção de 1 para 1 entre CBD e THC. Avaliar a molécula correta e o extrato correto é o que define o sucesso do tratamento clínico.
A Chave e a Fechadura: Como age no Sistema Endocanabinoide?
Para compreender os benefícios medicinais da planta, é preciso antes entender como o nosso corpo reage. Alana explica que os seres humanos possuem um sistema endocanabinoide, que funciona em um mecanismo de "chave e fechadura".
O nosso organismo produz moléculas endógenas (as chaves) que se ligam a receptores (as fechaduras) com o intuito de manter a homeostase, ou seja, o equilíbrio das funções vitais.
Em situações extremas passageiras, como um luto repentino, esse sistema age rapidamente para modular neurotransmissores (como a serotonina) e devolver ao corpo a sensação de normalidade e estabilidade após o estresse agudo.
No entanto, em situações de doenças crônicas (como ansiedade generalizada crônica, epilepsia e dor crônica), o nosso corpo entra em exaustão e falha em fazer esse reequilíbrio.
É neste exato momento de falha sistêmica que os canabinoides da planta assumem um papel vital: as moléculas exógenas (CBD, THC, etc.) entram no organismo, ligam-se a essas fechaduras biológicas e reabrem as "portas" da função cerebral para restabelecer a normalidade do corpo.
O perigo do estigma e da prescrição incorreta
As pesquisadoras concordam que o maior risco hoje para a terapia endocanabinoide não está na planta em si, mas no achismo e na falta de educação médica.
Helena afirma que médicos resistentes à planta, quando pressionados a prescrever algo e o fazem de maneira incorreta — indicando moléculas erradas ou doses ineficazes —, colocam a culpa na medicação ao invés da má indicação.
Para elas, o futuro deve se guiar pela objetividade dos dados: a ciência não liga para opiniões, e somente o conhecimento claro sobre as dosagens e vias de administração pode consolidar a cannabis como um tratamento seguro e transformar a vida dos pacientes.
Veja a entrevista completa: