Plantas são transformadas em biofábricas de psicodélicos, revela estudo

Pesquisa inédita reconstrói em plantas a produção de DMT, psilocibina e outros compostos de três reinos, com potencial terapêutico e impacto industrial

Publicada em 08/04/2026

Folha de Nicotiana benthamiana usada em estudo científico para produzir compostos psicodélicos como DMT e psilocibina

Estudo mostra que plantas podem ser usadas para produzir psicodélicos com potencial terapêutico

Um estudo publicado em 1º de abril de 2026 na revista Science Advances apresenta um avanço sem precedentes na biotecnologia e na pesquisa com psicodélicos: a reconstrução completa, em plantas, das vias biossintéticas de compostos como DMT (N,N-dimetiltriptamina), psilocibina, psilocina, bufotenina e 5-MeO-DMT — moléculas naturalmente encontradas em plantas, fungos e animais.

A pesquisa não apenas identifica, pela primeira vez, a via completa de produção do DMT em plantas, como também demonstra a possibilidade de combinar enzimas de diferentes reinos da vida em um único sistema vegetal. O resultado é uma plataforma capaz de produzir simultaneamente múltiplos psicodélicos com potencial terapêutico, utilizando apenas o metabolismo interno da planta.

Elucidação inédita da via do DMT

Um dos principais avanços do estudo foi a identificação completa da rota biossintética do DMT em espécies como Psychotria viridis e Acacia acuminata, tradicionalmente associadas a usos ritualísticos, como na ayahuasca. Até então, essa via era apenas parcialmente compreendida.

Os pesquisadores demonstraram que o processo começa com o aminoácido triptofano, naturalmente presente nas plantas, que é convertido em triptamina por meio da enzima triptofano descarboxilase (TDC). Em seguida, enzimas do tipo N-metiltransferase (NMT) realizam duas etapas sequenciais de metilação, formando primeiro a N-metiltriptamina e, por fim, o DMT.

A validação dessas enzimas foi realizada tanto em sistemas in vitro quanto em plantas vivas, incluindo a expressão em Nicotiana benthamiana - parente próxima do tabaco, onde a produção de DMT foi confirmada sem necessidade de suplementação externa de substratos.

Engenharia metabólica entre reinos

O diferencial mais inovador do estudo está na integração de enzimas provenientes de três reinos biológicos — Plantae, Fungi e Animalia — em um único organismo vegetal. Essa abordagem permitiu a reconstrução simultânea das vias biossintéticas de cinco psicodélicos clássicos:

A combinação dessas vias em plantas representa um avanço significativo em biologia sintética, ao permitir a produção simultânea de múltiplos compostos em um único sistema, algo raro em processos biotecnológicos convencionais.

Uso de inteligência artificial e otimização enzimática

Outro destaque do estudo foi a aplicação de modelagem estrutural com AlphaFold3 para compreender a interação entre enzimas e substratos. A partir dessas simulações, os pesquisadores projetaram mutações específicas em enzimas-chave, aumentando significativamente a eficiência da produção de indoletilaminas — em alguns casos, com ganhos expressivos na síntese de compostos como o 5-MeO-DMT.

Essa abordagem baseada em design racional representa um avanço em relação aos métodos tradicionais de tentativa e erro, permitindo otimizações mais rápidas e direcionadas.

Produção sustentável e novos compostos

Além da reprodução de moléculas naturais, o estudo também conseguiu gerar análogos halogenados de psicodélicos — compostos modificados que não ocorrem naturalmente, mas que podem apresentar propriedades terapêuticas diferenciadas.

A produção em plantas oferece vantagens importantes:

  • Redução da dependência de extração de organismos naturais
  • Menor impacto ambiental
  • Maior controle de qualidade e padronização
  • Possibilidade de escalabilidade industrial

Atualmente, a obtenção desses compostos depende de plantas específicas, cogumelos ou até animais, como o sapo do deserto de Sonora, o que levanta preocupações ecológicas e éticas.

Limitações e próximos passos

Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que a produção ainda ocorre em níveis experimentais e inferiores aos encontrados em fontes naturais. A viabilização comercial exigirá otimizações adicionais, incluindo aumento de rendimento, estabilidade genética e adaptação a sistemas agrícolas.

Ainda assim, o estudo estabelece uma base sólida para o desenvolvimento de “biofábricas vegetais” capazes de produzir psicodélicos de forma eficiente e sustentável.

Impacto na medicina e na indústria

O interesse clínico em psicodélicos tem crescido nos últimos anos, impulsionado por evidências de que essas substâncias promovem neuroplasticidade e modulam circuitos serotoninérgicos, especialmente via receptor 5-HT2A. Compostos como a psilocibina já demonstraram potencial no tratamento de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e dependência, tendo inclusive recebido a designação de Terapia Inovadora pela FDA.

Nesse contexto, a possibilidade de produzir essas moléculas em plantas — e até criar novas variações — pode acelerar o desenvolvimento de terapias, reduzir custos e abrir novas frentes de pesquisa farmacêutica.

Ao integrar biotecnologia vegetal, engenharia metabólica e inteligência artificial, o estudo posiciona as plantas como protagonistas em uma nova fase da medicina baseada em psicodélicos, com implicações que vão da sustentabilidade ambiental à inovação terapêutica.